quarta-feira, 28 de outubro de 2009

APENAS UM SONHO

Ontem tive um sonho – ou melhor, um sonho ruim que não chegou a ser pesadelo. Sei que provavelmente o tive devido ao filme de terror que vi a noite, sem contar que fui dormir com a barriga cheia de pipoca. Geralmente tenho pesadelos se como antes de deitar... mas é raro filmes de terror me causarem o mesmo efeito. Meu veredicto final então é que a vilã da história é a pipoca.

Sonhei que estava no céu. Percebi logo que estava lá, mas não sei explicar o porquê. Era tudo muito limpo, muito claro. Mas o céu era como se fosse uma cidade comum... embora muito mais cuidada que qualquer outra. Eu estava de jaleco, com uma calça social de alfaiataria e uma camisa de cetim rosa. Tive um pensamento tipicamente feminino dentro do sonho: “pelo menos morri bem vestida.”. Mas por que o jaleco? Não é possível... mesmo no céu ainda estaria de plantão? Talvez este seja o típico pesadelo de um médico residente. Estaria de plantão por toda a eternidade? Mas prossigamos no sonho...

Avistei na esquina uma casa bem parecida com um posto de saúde e me dirigi para lá. Perguntei a uma senhora se era realmente um posto e ela riu... Doutora, a senhora não é a primeira médica a vir aqui. É engraçado isto, acho que vocês não se imaginam ficar sem trabalhar. Mas me diga: Como irá trabalhar no céu se as pessoas doentes já morreram? Não existem mais pacientes aqui... só ex-pacientes. As doenças não entram no céu.

Neste momento do sonho senti que – literalmente – o céu havia desabado sobre a minha cabeça. Passaria o resto da vida... ou o que é pior, da eternidade, sem trabalhar? Quem precisaria dos meus cuidados? O que mais poderia fazer? Não que eu ficasse chateada por não haver mais doenças, mas no que poderia trabalhar? Este pensamento foi tão intenso, que provavelmente foi o responsável pelo meu despertar.

Hoje, chegando em casa, comecei a pensar se realmente o céu existir desta forma utópica como aprendemos a pensar desde cedo... o que será dos médicos, enfermeiros, assistentes de enfermagem? O que será dos pesquisadores ligados à área da saúde? E o que será dos farmacêuticos, fisioterapeutas e nutricionistas? O que será dos biólogos que estudam justamente tudo o que é ligado à vida? Um bando de desocupados diante de uma realidade onde a doença não mais existe?

O que nós da área da saúde, poderíamos então fazer no céu? Especializar-nos em outra área? Mas é contraditório existir faculdades no céu... porque lá – teoricamente – as pessoas são todas iguais, não havendo necessidade de evolução intelectual. Partindo deste conceito, outra classe que também estaria rendida ao desemprego é a dos professores... não seria mais necessário se educar no céu.

Quem sabe poderíamos aumentar o contingente dos políticos? Sim... devem ser poucos a irem para lá, mas há os que vão por realmente conseguirem escapar deste sistema sujo que já domina nossas esferas políticas. De qualquer forma, deve ser uma classe pouco representativa lá em cima. Mas e as leis? E os direitos? E os deveres dos cidadãos? Seria necessário elaborá-los, cumpri-los e fiscalizá-los se todas as pessoas no céu pressupostamente fizeram em vida o que é certo? É provável então que os políticos não sejam mais necessários. E, por sua vez, os advogados também deixarão de ser necessários num contexto onde todos respeitarão as normas e não existirão pessoas ruins para serem punidas pelas leis dos homens.

Parece que todos os profissionais da área da saúde não estariam, então, sozinhos no ócio. Unir-se-iam a eles políticos, professores, advogados... além de representantes das diversas religiões, agentes funerários, coveiros, banqueiros, entre outros.

Assim, se você vive dando plantões, se trabalha muito para um sistema de saúde melhor e não está vendo luz no fim do túnel; se você é pesquisador ligado à biologia, ou à genética e vive em constante decepção diante da falta de investimentos nestas áreas; se você é professor e está cansado de um sistema que não valoriza a educação em seus diversos níveis; se ainda é um advogado ético e que se desilude com seus colegas maus profissionais, ou se é um religioso que se entristece com a constante descrença da humanidade em algo maior... para nós todos, que trabalhamos duramente no dia a dia... tenhamos pensamento positivo. Se o céu existe mesmo, vamos continuar trabalhando firme até ficarmos bem velhinhos... depois disto, ficaremos no ócio por toda a eternidade!
Andrea Pio

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

OS DOIS LADOS DO TEMPO


Num dia de setembro, Giovana observou atentamente sua casa, sentindo o cheiro de bolo de cenoura feito bem cedo. A luz natural vinda pelas grandes janelas iluminava as cápsulas de licopeno em cima da geladeira e o vinho tinto que se destacava no bar. A pequena luminária ao lado da cama direcionava-se para o livro “Combate ao envelhecimento” e para o creme anti-rugas, ambos esquecidos ali ao acordar. Escondidos no escuro, dentro da gaveta da escrivaninha, os exames pré-operatórios para a cirurgia plástica que aconteceria dentro de uma semana. No grande quarto, um pequeno espelho na parede branca, bem distante da luz, para onde ela então se dirigiu.

Como o tempo passou rápido... e como foi eficiente em depositar estas rugas no meu rosto. Consigo me lembrar das primeiras linhas de expressão no canto dos olhos, aos trinta anos, quando me preocupei ao vê-las ressaltadas pela maquiagem... mas sem me importar tanto assim. Nesta época sentia-me linda independente de qualquer coisa. Meu marido me achava linda. Meus pais me achavam linda. Meus filhos me chamavam de “a mãe mais linda do mundo”. Como dar importância então a algumas linhas de expressão? Quando os primeiros fios brancos de cabelo resolveram dominar minha cabeça, também não me incomodei tanto... fui ao salão e os pintei de preto. Ficou bonito na época, e resolvi repetir este procedimento até hoje... embora já não tenha tanto cabelo como antes. Mas não consigo lembrar exatamente de como foram se acentuando as linhas até se transformarem nestas rugas... não consigo lembrar em que momento meu rosto começou a mudar.

Lembro-me de cada alteração no rosto dos meus filhos. Lembro exatamente do dia em que começaram a andar e falar... e do dia em que percebi que já haviam crescido, não mais cabendo nos limites dos meus braços. Lembro do dia em que percebi os cabelos grisalhos do meu marido, as rugas mais acentuadas na testa e a pele não tão firme do pescoço... neste dia, achei-o ainda mais interessante do que antes. Sua beleza havia amadurecido. Lembro do envelhecer gradativo dos meus pais e hoje, não os acho tão envelhecidos assim, porque minhas rugas me aproximaram de sua aparência. E lembro-me de cada mudança durante o crescimento dos meus netos. De cada sorriso ou cada choro, emoldurado por rostos ainda infantis. Mas não me lembro dos momentos em que eu, exatamente, mudei. E hoje, vendo o meu rosto, sinto como se meu coração não tivesse acompanhado o tempo. Sinto que sou a mesma, mas minhas formas deixaram-se convencer pelo tempo. Meu coração não.

Há um ano reencontrei velhos amigos, os quais há muito não via. Percebi de imediato que o tempo fora mais generoso com uns do que com outros, embora impiedoso com todos. Num primeiro momento, ficamos nos reparando, nos comparando... até que depois de certo tempo, em meio às conversas sobre o passado, esquecemos da aparência e nos entretemos no que realmente éramos por dentro... os mesmos de anos atrás, com pequenas diferenças. Percebi que o Jorge continuava engraçado, que a Marina super ligada à profissão como sempre foi, que a Mônica havia realizado seu maior sonho de se casar na Turquia, que o Augusto mantinha-se temperamental e ciumento com a esposa... e que o Francisco não perdera sua mentalidade de “Don Juan”, tendo ficado ainda mais chato. Pensei comigo se a chatice não seria uma espécie de ruga no coração... ninguém a vê, mas também piora com o tempo. No meio da conversa, já animada com doce incentivo do vinho, chegou a Josi. No início ninguém a reconheceu, mas após parar ao lado de nossa mesa, foi o suficiente para sabermos quem era. Certamente o tempo foi menos impiedoso com ela... pouquíssimas rugas em seu rosto, mas... ao mesmo tempo, fora a que mais havia mudado. Seu rosto já não tinha a mesma expressão de antes. Já não parecia a mesma Josi. Certamente todos os homens da mesa comentaram que estava lindíssima e que era a mais conservada... comentário de mau gosto que verdadeiramente me tocou. Quer dizer então, que eu não estava conservada? Pensei nas cebolas há tanto tempo no armário da cozinha... cebolas em conserva.

Quer dizer que é melhor estar conservada, mesmo tendo mudado o rosto pelo efeito de uma cirurgia plástica? Pela atitude das pessoas, percebi que era. Melhor parecer jovem, mesmo de uma forma artificial.

Depois desta data comecei a investir nos cremes anti-rugas. Passo religiosamente duas vezes ao dia, após tonificar a pele. Também comprei um aparelho para ginástica facial, e outro de massagem para o pescoço. Melhorei muito, mas... as rugas insistiram em ficar. Tornei-me obsessiva com isso e hoje estou aqui, rendida pela decisão de também fazer cirurgia plástica. Meu marido e meus filhos não querem, mas tenho certeza de que me acharão mais conservada... vou tentar anular grande parte do tempo que me marcou. Marcou minha pele.

Olhando assim no espelho, confesso que não me acho tão diferente de quando era jovem... estou mais envelhecida, mas me reconheço muito bem... embora não aprove estas rugas que resolveram aparecer como pequenos alienígenas. Mas... sinto-me eu mesma. Estou começando a ficar com medo de mudar demais e não me reconhecer. De mudar meus traços, que herdei de meus pais e passei para meus filhos. De olhar depois neste mesmo espelho e pensar “estou mais nova, e mais diferente do que eu era”. Não sei se quero realmente isso. Temo que meus filhos me olhem e percam um pouco de sua própria identidade... afinal, foi o meu o primeiro rosto que viram na vida, e o que continuam vendo sempre, mesmo com as rugas que se somam cada vez mais... eles se identificam com minha imagem, da mesma forma que eu me identifico com a imagem dos meus pais. A plástica não mudará isto? Como ter certeza? Preciso pensar mais.

Giovana deixou sozinho o espelho, pegou sua bolsa e saiu apressada.

- A sra. quer mesmo cancelar a cirurgia? Está receosa porque a data está próxima, certamente. Mas pense que valerá a pena, e que ficará mais bonita mais jovem. Pense um pouco mais. Em algumas horas recuperará muitos anos!

- Doutor, agradeço muito ao senhor e peço desculpas por tanto incômodo, mas mudei de idéia sim. Já não me sinto tão mal. Continuarei usando meus cremes, me matricularei na academia hoje, e continuarei pintando meu cabelo... talvez de outra cor... estou pensando também em fazer peeling facial, mas plástica sei que não quero mais. Não quero me identificar com as cebolas que estão no meu armário. Não quero parar ao lado da mesa com velhos amigos, e ver que eles não me reconheceram mais... e não pelas rugas, mas por traços que nunca me pertenceram. Prefiro não ser reconhecida pelas minhas rugas, que já são minhas mesmo e que as pessoas mais próximas de mim as viram nascer. Sinto-me a mesma doutor. Meu coração ainda está sem rugas. Não quero envelhecê-lo agora com escolhas que não seriam as minhas.

Ao retornar, Giovana observou novamente sua casa, não mais sentindo o cheiro de bolo de cenoura, mas das margaridas que estavam na sala. Olhou para as fotos de seus filhos na infância, de seus netos, de seu marido já com cabelos grisalhos ao seu lado. Reparou que a garrafa de vinho já estava na metade e precisava comprar mais. Foi até o quarto, olhou para o espelho e pensou: Mudarei o espelho. Este é pequeno demais.

Quase sem perceber, viu um pequeno bilhete preso no espelho, o qual ainda não havia notado. Aproximou-se e leu o que estava escrito, com uma letra já bem conhecida: “Mãe, você sempre foi, é e sempre será a mãe mais linda do mundo”.
Andrea Pio

domingo, 30 de agosto de 2009

PAULO FREIRE VAI AO MÉDICO


Sempre fico muito reticente em me opor a certas opiniões unânimes sobre uma idéia, uma pessoa, ou um fato. Quando o faço, logo depois surge uma “auto-cobrança” representada pelo seguinte questionamento: Estou me rendendo à pretensão? Quem sou eu para discordar do que é praticamente unânime? Foi assim que adotei a palavra “dialética” como uma de minhas prediletas. É a dialética que, ao longo dos anos, vem me defendendo de possíveis pretensões.


Ainda na adolescência, ao me deparar com o livro “Pedagogia do Oprimido”, tive o primeiro contato com o educador Paulo Freire. Naquele momento identifiquei-me com o título, afinal, qual adolescente não se sente oprimido? No entanto, conforme fui me aprofundando no assunto – dentro de minhas limitações – percebi que este era bem mais amplo e complexo do que a pedagogia para aborrecentes... e assim, resolvi deixá-lo para mais tarde.


Alguns anos depois, o “mais tarde” chegou. A metodologia Paulo Freire consiste, resumidamente, numa proposta para a alfabetização que leva em consideração o próprio contexto do indivíduo, buscando alfabetizá-lo com palavras comuns ao seu meio habitual. Segundo Paulo Freire, por exemplo, uma pessoa que vive em situações sócio-econômicas precárias e que jamais andou de avião, não deveria ser alfabetizada com a palavra “avião”. Inicialmente seria feito um levantamento do universo vocabular do grupo no qual aquela pessoa estivesse inserida, e posteriormente, tais palavras seriam trabalhadas de acordo com a riqueza fonética e seu significado, contextualizando-as dentro daquela realidade. Este método tornaria o ensino mais interessante e eficaz.


Já de imediato, não concordei com tal metodologia. Isto não seria uma forma de segregação de grupos formalmente? Como seria justo educar pessoas de forma diferente, já supondo que suas realidades jamais poderiam, direta ou indiretamente, coincidir? Quer dizer que um grupo de pessoas cujas famílias fossem desagregadas, e que não teriam a oportunidade de comer uva, jamais poderiam ser educadas com a frase “vovó viu a uva”? Ainda era criança quando aprendi a palavra “caviar” e até hoje não o comi (e nem pretendo)... mas seria um absurdo não identificá-lo quando o visse. Aquela pessoa que nunca andou de avião, tem que aprender esta palavra sim, após saber o seu significado... desta forma, o avião estará inserido em seu mundo, e em seu vocabulário. O conhecimento traz o discernimento para nossas escolhas... e o nosso mundo é aquilo que conhecemos.


No entanto, nunca me senti confortável em criticar um dos maiores educadores de nosso país, principalmente porque toda sua obra reflete uma grande preocupação com o social, com os menos favorecidos, o que por si só, já o faz uma grande pessoa. É difícil encontrar opiniões contrárias. Assim, fiquei aguardando que o tempo fizesse com que eu mudasse – pelo menos em parte – de idéia.


Num dia destes, li um artigo interessante da Universidade de Brasília sobre o índice de adesão ao tratamento dietético em pacientes portadores de Diabetes Mellitus. Dos pacientes analisados, verificou-se uma não adesão em torno de 55%. Os pacientes com melhor grau de escolaridade eram mais aderentes, sendo que os analfabetos (29% da população estudada) estavam no grupo dos menos aderentes. Quando foram analisados os motivos para isto, verificou-se que 38% dos pacientes simplesmente não entendiam como o tratamento deveria ser feito. Concluiu-se então, que uma “educação nutricional” seria fundamental para uma maior aderência.


Além do Diabetes Mellitus, estudos referentes à adesão no tratamento anti-hipertensivo mostram que cerca de 50% dos pacientes submetidos à terapia também não são aderentes. Dentre os fatores que interferem na adesão, embora o índice sócio-econômico não seja fator independente, alguns fatores estão bem estabelecidos, como analfabetismo, baixo nível educacional e econômico. O problema da não adesão ao tratamento estende-se ainda para outras doenças. Recentemente, o Presidente do departamento de aterosclerose da Sociedade Brasileira de Cardiologia afirmou que a adesão ao tratamento da dislipidemia no Brasil é muito baixa.


Pensando na gravidade destes dados, Paulo Freire surgiu (sorrindo) em minha mente... afinal, todos estes dados estavam relacionados à própria educação, porém no que se refere à saúde. Esta questão me fez pensar que mesmo ampliando o atendimento médico à população, assim como o acesso aos medicamentos distribuídos na rede pública, isto não é suficiente para melhorarmos os índices de saúde. Ampliar o atendimento e a distribuição de medicamentos não significa ampliar o conhecimento do indivíduo sobre sua própria doença. Sem este conhecimento, é possível um tratamento eficaz? É bem possível que os altos índices de não adesão, estejam em parte, relacionados a esta questão.


Teoricamente, o médico deve explicar o tratamento ao paciente antes de prescrevê-lo. Explicar de forma clara, objetiva, escrevendo na receita os medicamentos de forma legível... tudo isto é mandatório na prática. Mas... até onde vai o “teoricamente”? Qual o limite na prática médica entre se preocupar com o que “se deve fazer” pelo paciente e se preocupar com o que “realmente será feito” por ele? O que é claro para alguns, pode não ser para outros. A mesma explicação de um tratamento pode ser clara para um paciente e totalmente nebulosa para outro.


Caberia ao médico então, introduzir na prática médica, uma linguagem que se adapte à realidade do paciente? Levar para dentro do consultório certos elementos presentes no contexto do paciente, de forma a tornar mais claro seu tratamento?


Torna-se evidente, neste momento, que este pensamento consiste na metodologia Paulo Freire aplicada à prática médica. Para que um paciente se cuide adequadamente, é necessário que ele entenda a importância da profilaxia na prevenção, o significado de sua doença para aderir ao tratamento, e a forma de prosseguir evitando danos maiores. Tudo isto parece muito simples, mas se formos pensar naqueles índices de não adesão mencionados, veremos que é necessário mais do que o médico e o paciente frente a frente. É necessário, que entre eles haja uma ponte de comunicação.


Se continuo discordando da metodologia Paulo Freire na alfabetização do indivíduo, hoje vejo que sua aplicação na relação médico-paciente encontra seu lugar, afinal, neste caso os resultados precisam ser imediatos. Dentro do consultório, pessoas que jamais comeram uva, não tiveram avós, ou jamais viram um avião, ocuparão a mesma cadeira de quem já conhece tudo isto. Resta ao médico então decidir entre “fazer o seu papel” ou fazer mais do que isto, conseguindo enxergar dentro de cada pessoa, todo o contexto social que ela carrega. Abrir as portas do consultório para uma linguagem mais acessível, assim como para toda uma equipe multidisciplinar, quem sabe não fará com que aquele paciente pouco instruído, pelo menos em relação à sua saúde, tenha um pouco mais de conhecimento.


Andrea Pio

quarta-feira, 22 de julho de 2009

DO PRIVILÉGIO À ESCOLHA



São Paulo, Julho de 1935. Era um dia frio, daqueles onde as folhas acordavam banhadas por uma fina lâmina de gelo, aguardando ansiosas pelo primeiro raio de sol. Estava em frente a uma bela casa amarela, sem muros, de janelas grandes, por onde se via a sala ampla e cheia de gente. “Quanta gente”, pensei na época. Percebi que as flores na varanda eram parecidas com as do meu vestido, e por um momento – contrariando o motivo de eu estar lá – fiquei feliz. Senti as mãos firmes de minha mãe me puxando para atravessar a estreita rua, e seu olhar recriminando meus passos lentos de sono. Tinha onze ou doze anos na época, de modo que meus passos ainda eram pequenos demais.


Adentramos na ampla sala e concluí rapidamente que a janela não era tão grande assim, pois havia muito mais pessoas do que se podia enxergar pelo lado de fora. Estava um pouco escuro, de tal forma que os semblantes pareciam uniformes, e as lágrimas só tornavam-se evidentes pela quantidade de lenços molhados nas mãos das senhoras. Procurei alguém da minha estatura, mas não encontrei ninguém. Pensei que talvez não devesse estar lá, mas era Domingo e minha mãe não tinha com quem me deixar. Continuamos atravessando a sala, diante de muitos lenços, sussurros, e mãos em minha cabeça, até que chegamos à cozinha. Minha mãe largou minha mão por um instante e foi ao encontro de uma senhora bem idosa. Abraçou-a gentilmente, diante de duas lágrimas intensas e um sorriso vazio. Lembro que observei aquela cena encantada com tanta ternura, e ao mesmo tempo, me perguntando quem seria aquela senhora. Lembro também que logo depois, fixei meu olhar numa tigela cheia de balas em cima da mesa, e as desejei intensamente.


Entretida com a visão das balas, quase não percebi que minha mãe já se encontrava ao meu lado, junto com aquela senhora. Disse então: “Julia, esta é Dona Margarete, uma querida professora que sua mãe teve quando era da sua idade, e que me acompanhou até a adolescência”. A senhora então estendeu sua delicada mão em minha direção e me cumprimentou sem muito entusiasmo, mas de forma doce e terna. Seus olhos estavam fundos e seu cabelo um pouco despenteado. Mas o vestido... o vestido tinha o tecido mais bonito que o meu. Era preto, com algumas flores brancas bordadas em renda, tanto nas mangas como na barra. Muito singelo e bonito o vestido, tanto que me lembro até hoje. Pensei que minha mãe também deveria ter me vestido de preto para a ocasião, mas... pensei depois que não tinha nenhuma veste desta cor. Crianças quase não vestem preto.


Para meu alívio, minha mãe me orientou a aguardá-la ali, enquanto iria ver o corpo sendo velado. Pensei então que o corpo deveria estar no meio da sala, pois quando chegamos fomos pelo canto dela. Certamente minha mãe quis me poupar da triste visão. Sentei na cadeira ao lado do pote de balas e, para minha surpresa, já não as desejei mais. Passaram alguns minutos – que para uma criança pareciam muito mais – e decidi ir até a sala. Foi assim que o vi. Um senhor bem velhinho, quase cem anos talvez, de pele muito branca, cabelos muito brancos e os olhos fechados como se embalado por um sono eterno. Não tinha face de tristeza. Não tinha face de dor. Não tinha face de solidão. Parecia ter morrido como qualquer pessoa desejaria morrer ao chegar a sua hora... em paz. Para confirmar este pensamento, antes de retornar sorrateiramente para a cozinha, ouvi Dona Margarete dizer: “Ele morreu em paz, com suas mãos nas minhas, e toda a família perto.” Voltei para a cozinha e comigo estava o seguinte pensamento: Por que todos choravam se ele parecia ter morrido feliz? Descobri então, aos onze anos, o que era a saudade.



Hoje é dia 22 de Julho de 2009. Não sei se este é um dia frio como aquele há 74 anos... está sempre frio neste hospital, e ainda mais nesta UTI. Não consegui chegar até a janela desde a internação, de tal forma que não consigo nem ver se os raios de sol surgem a cada manhã. Mas estava feliz ao lado de meus filhos e netos no quarto, esperando ansiosamente pela alta hospitalar. E agora estou aqui, sozinha, aguardando ansiosamente pela breve meia hora do horário da visita. Ao meu lado, um menino jovem, cheio de tubos por todos os lados. Tenho visto o enorme esforço da equipe médica em fazer com que melhore, e parece estar melhorando pelo que ouvi. Fico feliz que ele possa contar com toda esta tecnologia a seu favor. Engraçado pensar assim... acho que esta mesma tecnologia, no meu caso, não está ao meu favor. Não a desejo para mim.


O que estou fazendo aqui? Não me perguntaram se eu queria vir. Decidiram por mim e consenti, porque quem decidiu me amava mais do que tudo. Não suportava a idéia de eu partir, e quase sem querer, consenti. Tentaram esconder minha própria doença, como se eu não tivesse consciência sobre mim mesma. E já ouvi o médico falar que não há cura, apenas uma medida “paliativa” para prolongar minha vida. Mas a que custo? Isso não me causa felicidade. O único pensamento feliz que me vem agora é o de estar em casa ao lado da minha família.


É por isso que certamente este pensamento da minha infância me veio à cabeça. A primeira vez que me deparei com a morte, não a julguei tão assustadora. Fazia parte de um ciclo natural, que um dia chega ao fim. Por que contrariar isso? Da mesma forma que já desejei festas de aniversário, um belo casamento, ter filhos, fazer festas de aniversário para meus filhos e tantas outras para meus netos, por que não posso desejar morrer naturalmente? Muitos dos que amei já se foram, deixando saudades. É esta minha decisão. Não quero deixar, no fim da vida, o sentimento de tristeza no pensamento das pessoas. Quero deixar o sentimento da saudade. Não quero abrir mão de um minuto sequer com quem amo, e eles precisam entender que não serei eterna... o meu amor será eternizado pela saudade. Não quero perder mais um minuto sequer aqui. Alguém, cuja evolução natural não ocorreu como deveria, deve ocupar este leito. Não eu. Se sempre desejei viver em paz, assim também quero partir. Se viver em paz é um privilégio, morrer em paz é uma escolha.

-
Doutor, preciso falar com o senhor.
- Dona Julia, a senhora está sentindo alguma coisa?
- Estou sim doutor. Estou sentindo vontade de ir para casa, ficar ao lado da minha família. Não quero mais ficar aqui. Pode chamá-los antes da visita para me buscarem. Sei que está chegando a hora de eu morrer, e quero que isso ocorra em minha casa.
- Mas Dona Julia, sua cirurgia está marcada para amanhã cedo. Logo a senhora estará no quarto. Não pode pensar o pior.
- Sei como estarei no quarto, e não quero chegar ao fim assim. Sou muito agradecida a vocês por terem sanado minha dor, meu incômodo. Agora já posso ir para casa e prometo que tomarei o analgésico.
- Depois conversaremos melhor Dona Julia.


- Alô, aqui é o Dr. Roberto. Por favor, gostaria da avaliação da psicologia para uma paciente aqui na UTI. Vocês fazem avaliações aqui também? Ótimo. Trata-se de uma paciente de uns noventa anos, bem lúcida, que é portadora de câncer intestinal e será submetida à colectomia amanhã cedo. Foi admitida nesta manhã e acredito estar deprimida, querendo ir para casa. Vocês podem vir no horário da visita? Assim conversam também com a família dela. Introduzirei um antidepressivo na prescrição, mas demorará para fazer efeito. Não acho que esteja delirando. Continua lúcida, porém com o pensamento fixo de ir para casa. Conversarei com a família também. Obrigado então. Boa tarde e fico aguardando.


Andrea Pio

terça-feira, 30 de junho de 2009

FÉRIAS AO PENSAMENTO


Durante nossa vida, conforme a etapa pela qual passamos, há sempre pensamentos predominantes. Se para a criança predomina o “queria um brinquedo”, ou para o adolescente o “queria chegar mais tarde”, conforme amadurecemos, nossos desejos vão gradativamente amadurecendo com agente, e adotando – inevitavelmente – o peso da responsabilidade. Quando pensamos então no médico, antes da faculdade e em plena juventude, o pensamento predominante é “preciso passar no vestibular”. Se ele passa, durante a faculdade o pensamento muda para “preciso passar em todas as disciplinas”. Se ele consegue chegar ao final, pensa: “Preciso passar na Residência Médica”. E uma vez na Residência, o pensamento predominante – e recorrente – passa a ser: “Estou precisando de férias”.

É nisto que eu pensava durante o meu primeiro dia de férias, aguardando o avião no aeroporto. Deveria estar bem disposta para a viagem já que iria para um local tão bonito, mas o que eu desejava mesmo é que neste lugar, tivesse uma cama bem aconchegante em que pudesse simplesmente dormir. Isto é um privilégio para qualquer residente. Acordar tarde, dormir cedo e não precisar ouvir no início do dia o som desagradável de um despertador, principalmente aquele que simula o cacarejo de um galo. O meu é assim. Tenho odiado galos ultimamente. Pensei então se não seria por isso que não tenho conseguido comer mais frango nas refeições. Vai ver que os frangos estão assumindo o controle do meu inconsciente e me fazendo odiá-los. Só não vou alterar para o som de um mugido porque não pretendo virar vegetariana. Adoro carne vermelha.

Como se fosse preciso interromper meus devaneios, o som do aeroporto informou o início do embarque. Segui com minha família para o avião, feliz por ter aguardado somente quarenta minutos... havia desenvolvido anticorpos contra “espera em aeroporto” no episódio da crise no tráfego aéreo brasileiro em 2007. Interrompi rapidamente estes pensamentos já que havia decidido não pensar em nada repulsivo durante minhas férias. Poderia ser difícil não pensar em problemas, mas tinha a obrigação de tentar. Tomei esta decisão após reler algumas crônicas de minha autoria, nas quais críticas sociais estavam sempre presentes... não que isso estivesse errado, já que as escrevo objetivamente com este propósito, mas apenas decidi que ao retornar das férias, gostaria de escrever algo leve, que não gerasse tantas reflexões.

Geralmente levo um livro para as viagens, dando início à leitura já na partida. Desta vez fui procurar, dentre os que estão aguardando ansiosamente que os leia, algum cujo conteúdo fosse ficção, puxando para uma comédia ou romance. Descobri que não possuía nenhum livro deste gênero em minha casa, exceto pelos de mitologia grega que infelizmente, já havia lido. Insisti em escolher algum dos que não havia lido. Um falava sobre a globalização (confesso que a vontade foi enorme de levar este, mas me contive deixando-o na estante), outro falava sobre a história de um portador da Síndrome de Asperger... embora a sinopse sugerisse uma narrativa cômica, achei que seria um absurdo pensar em qualquer doença em plenas férias da residência. Por fim, sobraram dois que abordavam praticamente o mesmo tema: o poder do pensamento positivo. Definitivamente não achava positivo ler algo que me forçasse tanto a pensar, se justamente, queria dar férias ao meu pensamento. Sentada em meu quarto pensei então: Por que precisaria ler um livro nas férias? E se simplesmente... não lesse? Foi então esta a opção inédita escolhida.

A "opção inedita escolhida" me fez, pouco antes de embarcar, ter a síndrome de abstinência do livro: Pensamento acelerado sobre o que fazer dentro do avião, olhos constantemente voltados para a livraria, pensamento fixo em ler qualquer coisa ao menos por uma hora. Não resistí e resolví comprar uma revista... ao menos não seria um livro. A escolha da revista foi difícil, já que deveria excluir todas aquelas que gerassem pensamentos proibitivos (diga-se pensamentos de cunho social). Excluí então todas as quatro que costumo ler. Como se uma idéia genial despontasse em minha cabeça, resolvi observar em qual setor a maior parte das mulheres, mais ou menos da minha idade, estavam situadas. Me dirigi para lá. Estavam no setor das revistas de fofoca... acho que foi muito ofensivo este termo... corrigindo, estavam no setor das “revistas referentes às personalidades atualmente com fama”. Fiquei até curiosa com algumas notícias nas capas, mas resolvi levar uma sobre exercícios físicos. De posse desta revista, dei início (mais aliviada) as minhas férias físicas e mentais. Seriam duas semanas para atingir dois objetivos: Descansar e não me preocupar - absolutamente - com nada.


E assim passaram-se duas semanas.


Hoje retorno de viagem. Provavelmente você leitor deve estar pensando se consegui atingir meu objetivo de descansar e “não me preocupar”. Seria difícil resumir aqui todo o conteúdo das minhas atividades, e sei que não está muito interessado nisto, de tal forma que serei breve. Deixarei então que você conclua, ao final, se minha mente entrou de férias comigo.

Aboli o despertador. Há dois dias cheguei a inclusive, comer frango no almoço... quem sabe o galo desistiu de permanecer no meu inconsciente e entrou de férias de mim. Embora fosse o esperado, não tive vontade de acordar tarde e dormir cedo... a cidade era tão linda, que certamente seria um desperdício de tempo. Acordava cedo simplesmente por querer acordar e desfrutar de cada segundo dos dias.

O local onde passamos as férias foi o cenário perfeito para meu objetivo. O sul do Brasil, pelo menos o local que visitei até então por mim desconhecido, nos poupa de termos que estar diante de problemas sociais muito claros. Não vi crianças na rua, ninguém me pediu dinheiro, não vi semblantes tristes, não vi casas a ponto de desmoronar. Não vi violência no trânsito, falta de educação, e muito menos aquele espírito de “se dar bem” em cima do turista. Não vi ruas sujas, muros pixados, prédios abandonados no centro da cidade. Não vi a correria dos olhos que nem se cruzam, por estarem apressados demais. Era como se a realidade se transformasse diante dos meus olhos, numa doce utopia.

Diante de tantos passeios fiquei bem sem um livro. Diante de tantas comidas boas engordei mais de um quilo (a revista sobre exercícios físicos permaneceu dormindo). Diante de tanto vinho, realmente em alguns momentos nem consegui pensar. Mas confesso ter cometido dois pequenos deslizes. O primeiro foi num dia muito frio, após o café da manhã. Diante da lareira me sentei e sem querer, folheei um jornal. Parei na sessão referente à política e comecei a ler sobre a crise no senado. Mas não cheguei a terminar, pois lembrei a tempo de minha decisão de não ler nada muito sério. O segundo foi um pouco maior. Prestei atenção na conversa entre duas senhoras – era inevitável, pois estavam na mesa ao lado – e nesta conversa, falaram mal de toda a classe médica. Jogaram todos os problemas sociais e a crise na saúde pública nos ombros dos médicos, colocando nestes a culpa de todo um sistema. Não vou detalhar esta conversa porque não vale a pena. Apenas digo que foi um deslize maior não por ter ouvido a conversa alheia (quem já não fez isso?), mas porque conseguiu me deixar mal humorada por pelo menos duas horas. Uma lástima.

Fora isso, acredito que me saí bem. E assim, começo a questionar se não vale a pena tirarmos férias de pensamento mesmo nos períodos em que não estamos efetivamente de férias. Pode ser que comprar uma “revista referente às personalidades atualmente com fama” seja mais interessante que uma outra que nos faz pensar demais. Pode ser que estar diante dos problemas sociais e questioná-los não implique em deixar se afetar... porque “afetar” vem de afeto... e o afeto precisa de limites. Pode ser que exista uma forma de descansar a mente, sem que para isso seja necessário abrir mão do senso crítico. Sem que para isso, seja necessário abrir mão da sensibilidade.

Este é o saldo das minhas férias e deixo a seu critério julgar se este foi um texto mais leve... ou não. Quanto a mim, já decidi que nas próximas férias também não levarei nenhum livro... só preciso encontrar algum lugar onde tudo também pareça estar bem. No entanto, penso se o local onde tiramos férias não possuia seus problemas ou se fomos nós que não nos permitimos enxergá-los.

Talvez seja possível fazer isso também em nosso contexto habitual. Atingir o equilíbrio entre o conformismo e a crítica. Entre a preocupação e a indiferença. Entre a sensibilidade de observar e a objetividade por não refletir. A questão é justamente se vale a pena conseguirmos dominar o que existe de mais livre na vida... o pensamento.

Andrea Pio

terça-feira, 19 de maio de 2009

CARTA PÓSTUMA A DARWIN

Tenho pensado muito em Charles Darwin diante da comemoração do seu bicentenário. Este homem, que foi um marco na biologia moderna, teve a grande maestria de em pleno século XIX, ampliar a visão humana sobre a própria existência, através da teoria da evolução das espécies. Comecei a questionar como Darwin se sentiria no atual século XXI, e desta forma, como a arte abre as portas para todas as possibilidades, decidi escrever-lhe uma carta, colocando dentro de parênteses imaginários todo este tempo que nos separa.

Ilmo Sr. Darwin,
Escrevo para lhe contar sobre a evolução de nossa espécie no século XXI. O senhor inicialmente deve imaginar que foram poucas as mudanças em apenas 200 anos, mas dependendo do referencial, o ser humano mudou sim... e muito. Sei que ainda serão necessários milhares de anos para que mudanças físicas significativas ocorram em nossa espécie, mas como o senhor mesmo mencionou em sua teoria, tais mudanças serão fruto da adaptação dos mais aptos a este meio que continuamente se transforma. E é deste meio, ou melhor, do mundo atual que venho lhe falar.


Movemo-nos muito menos atualmente. As carruagens e veículos a vapor destinados a poucos em sua época, foram substituídos por um aglomerado de carros e ônibus nas grandes cidades. As linhas férreas permanecem, mas além delas surgiram os metrôs que percorrem longas distâncias em pouco tempo. Praticamente não há como andar de bicicleta nas ruas, com o risco de sermos atropelados por veículos maiores.


Em sua época, o lazer resumia-se a passear pelos campos e praças, assistir a peças de teatro, e reunir-se para longas conversas em família. Hoje, estes costumes permanecem, mas o surgimento de inúmeras possibilidades tem nos levado a escolher aquelas que justamente nos afastam do convívio social e que não nos exigem grandes sacrifícios. Imagine o senhor, que ficamos sentados por longas horas em frente a uma caixa, onde a imagem de pessoas aparece como se fossem peças de teatro em miniatura, e praticamente não nos movemos diante dela. Esta caixa chama-se televisão. Para piorar, foi criada outra caixinha bem menor com vários botões, que permite ligar e desligar esta caixa maior, sem que precisemos nos locomover. É o chamado controle-remoto.


Mas não estamos somente mais sedentários. Nossa alimentação também mudou. A agricultura e a criação de gado persistem, porém bem mais grandiosas. Há tecnologia empregada no campo e na produção de alimentos industrializados. Hoje o alimento é mais acessível às classes sócio-econômicas menos favorecidas, embora em algumas partes do mundo ainda exista escassez. Mas apesar da melhoria no setor alimentar, o ser humano tem optado por se alimentar de forma prejudicial. Trocam um pedaço de carne e um prato de arroz, por uma comida chamada hambúrguer, que nada mais é do que carne triturada com muitos conservantes e gordura dentro de um pão. O senhor pode imaginar isso? Quando evoluímos ao ponto de extrairmos da natureza alimento para toda a humanidade, optamos por comer o que não é natural? Estamos nos convertendo à cultura do artificial, Sr. Darwin.


Falando em artificial, não foi só a alimentação e os hábitos que mudaram. O corpo humano também vem mudando substancialmente, sem que para isso sejam necessários milhares de anos. Para isso existe uma substância chamada silicone, assim como a cirurgia plástica. O ser humano hoje procura modificar seu fenótipo em busca do que é considerado bonito na época atual. O mais belo nem sempre é o natural. O senhor deve estar confuso neste momento, dentro de sua teoria da evolução. O mais apto hoje em dia pode ser produzido.


Desde a sua época, quando foi criado o microscópio e quando Pasteur descobriu a importância das bactérias na etiopatogenia de muitas doenças, houve muita evolução na Medicina. Hoje há muita tecnologia nos métodos diagnósticos, muitos medicamentos novos, muitas doenças descobertas. Mas ao mesmo tempo, tenho sentido que estamos indo contra o caminho natural da evolução humana. Estamos criando doenças talvez por não suportarmos evoluir.


Toda esta história de sedentarismo tem feito com que utilizemos menos nosso corpo, nossa musculatura. Toda esta alimentação artificial e industrializada tem entupido nossas artérias e originado inúmeras doenças. E todo o avanço na Medicina tem nos permitido tratar o que poderia ser prevenido. Tem nos permitido conciliar a batata frita com as estatinas... o sedentarismo com os remédios para emagrecer... a ansiedade humana com os psicotrópicos.


É por tudo isso, Sr. Darwin, que questiono: Como será nossa espécie num futuro distante? Teremos cabeças enormes e membros curtinhos por nos movermos cada vez menos? Teremos muito mais artérias e veias para agüentar tantas obstruções devido à alimentação cheia de gorduras? Ficaremos resistentes a alguns tipos de câncer certamente engatilhados pela exorbitante quantidade ingerida de conservantes? Nasceremos com uma quantidade de pele extra pronta para receber silicone? Teremos bocas menores por falarmos cada vez menos, nos convertendo ao silêncio diante da televisão e do computador?


Portanto, com todo o respeito, deixo por fim o seguinte questionamento ao senhor: Se vivemos num mundo cada vez mais artificial, o que restará de natural na teoria da seleção das espécies? Continuaremos chamando-a de "seleção natural"?

Andrea Pio

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O VALOR DE SER DOCTOR NUM PAÍS QUE SE DESCONHECE

Edson e Tarcísio eram amigos desde o segundo período da faculdade de Medicina. Eram amigos, porém tão diferentes, que os outros colegas de turma não entendiam como poderia ser possível aquela amizade.

Edson era um verdadeiro idealista. Era o melhor aluno na disciplina de Saúde e Sociedade. No período do curso de Semiologia, era o que mais conhecia os pacientes, principalmente aqueles mais carentes. Saía tarde da enfermaria. Usava uma barba grande, daquelas mal feitas, porém sempre a aparava nos períodos de prova. Usava tênis velho, daqueles com uma bandeirinha do Brasil, e nada de marcas internacionais. Participava das passeatas em prol da melhoria das Universidades Públicas, porém sem prejudicar a freqüência nas disciplinas, já que se orgulhava de ser um dos melhores alunos da turma. Namorava uma aluna da faculdade de Serviço Social, que estagiava em uma instituição para menores infratores. No quinto ano da faculdade apaixonou-se por Infectologia, decidindo seguir tal especialidade após a formatura. Fez residência em seu hospital-escola e defendeu tese sobre síndrome pulmonar hemorrágica na leptospirose em seu mestrado. No entanto, encontrava-se insatisfeito após concluída esta etapa. Seu sonho mesmo era passar um período na Amazônia, pois julgava que um infectologista era incompleto sem ter experiência em Malária e outras doenças típicas desta parte do país. Casou-se com sua namorada após esta ter concluído a faculdade e convenceu-a a passar alguns anos lá, até concluir seu doutorado sobre epidemiologia das doenças endêmicas da Amazônia brasileira. Após cinco anos morando na Amazônia, e com um filho nascido lá, retornou ao Rio de Janeiro, tendo concluído seu doutorado.

Tarcísio era considerado um “nerd” pela turma. Usava camisas pólo impecavelmente passadas (pela mãe) e jamais usava tênis... somente sapatos. No início da faculdade usava óculos de lentes tão espessas que ninguém sabia a cor de seus olhos... até que no quarto ano sua namorada, também estudante de medicina, o convenceu a usar lentes de contato. Talvez seus seis graus de miopia tivessem sido o maior incentivo para que se interessasse pela oftalmologia. Foi sempre um ótimo aluno, com sua cadeira cativa situada na primeira fila, ao lado da mesa do professor. Era muito introspectivo, e dificilmente estava presente nos encontros sociais da turma, não por deixar de gostar dos colegas, apenas por não fazer questão de ir. Só não deixava de comparecer anualmente nos encontros científicos de medicina, para onde sempre levava algum trabalho científico. Também não deixava de ir aos aniversários de seu melhor amigo Edson. Após um período de dúvida entre escolher Oftalmologia ou Reumatologia, decidiu pela primeira. Formou-se e logo iniciou sua residência, também em seu hospital-escola. Decidiu fazer pós-graduação nos Estados Unidos por dois anos, em cirurgia refrativa. Ao retornar, foi convidado para ser professor de duas boas faculdades particulares.

Após alguns anos de pouco contato, houve um reencontro de turma. Edson e Tarcísio confirmaram presença. Edson chegou mais cedo e todos notaram o quanto havia emagrecido. Foram estas as perguntas que ouviu:

- Nossa Edson, o que aconteceu com você? Se alimentou da mesma forma que os índios?
- Edson, por que você foi se enfiar lá na Amazônia, com risco de pegar malária, doenças tropicais? Ficar sem estrutura nenhuma para morar?
- Você morou em casa de palafita? Sabe falar a língua tupi-guarani?
- Tinham outros médicos lá Edson? São brasileiros?

Como Edson já estava acostumado com tais perguntas, respondeu a todas com um sorriso no rosto, achando toda aquela curiosidade natural. Mas... pensava também que outras perguntas também viriam, já que se tratava de sua turma. Pensou que lhe perguntariam sobre sua tese de doutorado, sobre sua experiência profissional nas doenças endêmicas da Amazônia... e no fundo, esperava algum reconhecimento, já que se orgulhava muito de toda esta formação. Estas perguntas não vieram.

Depois de uma hora, para surpresa de todos, chegou Tarcísio. Chegaram a fotografá-lo em sua chegada, por se tratar de um momento raro de socialização com a turma. Repararam que ele estava um pouco menos inibido, e que a camisa pólo já não estava tão bem passada como as de antigamente. Tarcísio ficou feliz ao reencontrar os velhos amigos, especialmente Edson, seu melhor amigo de turma. Logo após os cumprimentos iniciais, recebeu uma enxurrada de perguntas e comentários:

- Tarcísio, como foi lá nos States? Está todo importante agora hein?
- Nossa Tarcísio, você deve ser um excelente oftalmologista agora, depois deste tempo nos Estados Unidos. Conte para agente... a medicina lá é de primeiro mundo mesmo não é?
- Como foi para você voltar e ter que lidar com muito menos estrutura de novo?
- Tarcísio, quando eu precisar de um oftalmologista vai ser você, viu?

Como Tarcísio já estava acostumado com tantas perguntas desde seu retorno, respondeu com paciência e com voz baixa, já que não havia mudado tanto assim.

Finalmente os dois amigos puderam conversar com calma após a chegada de outros colegas. Neste momento, Edson pensou: “Como seria bom se os brasileiros valorizassem seu próprio país. Se interessassem inclusive, por uma medicina que tem a ver com nosso povo.”

Quase no mesmo instante, Tarcísio pensou: “Puxa, eu engordei dez quilos comendo hambúrguer nos E.U.A. e o Edson, que era gordo, emagreceu tanto na Amazônia. Mas ele não parece ter passado grandes sofrimentos lá. Apesar de ter feito esta loucura, parece estar bem feliz.”
Andrea Pio

domingo, 29 de março de 2009

TAQUICARDIA SOCIAL


Se você está lendo este texto, parabéns. Se não está preso no trânsito ou na fila do supermercado, ou o que é pior, se não teve tempo de ir ao supermercado e acabou de chegar do trabalho exausto sem vontade de fazer qualquer coisa... parabéns por estar aqui, lendo este texto. Você é um vitorioso. Um vitorioso por conseguir parar.

Já parou para pensar que não paramos nunca? Certamente, isso é tão filosófico, que não teve tempo para pensar nestas coisas. Um simples pensamento que foge à linearidade desta vida de hoje em dia é considerado filosófico demais. Mas vamos lá, já que começou a ler, talvez não esteja tão exausto, ou tão prático hoje. Fujamos então, ao menos por um breve momento, deste ritmo que nem nossos relógios conseguem acompanhar. Fujamos de nós mesmos.

Sou médico há mais de vinte anos, e ultimamente, tenho pensado se todo este tempo não seria pouco demais. Não consigo me atualizar dentro de tanta correria. Dizem que há cada quatro anos todo o conhecimento médico é duplicado, sendo diariamente publicados mais de mil artigos. Só no PubMed há mais de 18 milhões de artigos publicados ... não consigo dimensionar o que seja toda esta quantidade de conhecimento. Pensando ainda que grande parte destes artigos torna-se obsoleta pelos que vão surgindo progressivamente, fico ainda mais confuso. Temo me atualizar com o obsoleto.

Sou da geração dos livros, dos papiros. Não havia internet durante minha formação universitária. Meus livros eram substituídos a cada quatro anos por edições novas, de tal forma que jamais me julgava atrasado. Sempre gostei de estar atualizado. Há algumas semanas atrás, fui reencontrar um colega de turma, e o mesmo afirmou não comprar mais livros de sua especialidade. Ao invés disso, assina site de revistas médicas de sua área. Argumentei que também assinava uma revista, porém continuava me baseando pelos livros. Ele então foi categórico: “Antônio, você certamente está desatualizado”. Por um momento (confesso) ter sentido vontade de agredi-lo verbal e fisicamente. Mas depois de alguns minutos, percebi que infelizmente, ele estava certo... e eu, desatualizado. Talvez seja por isso que ele não é somente cardiologista e sim, ritmologista. Talvez por isso estejamos caminhando para a ultra-especialização. Não é apenas um ortopedista que opera nosso joelho. É um ortopedista especializado em joelho que vem nos operar. Brevemente, será um ortopedista especializado em cirurgias do ligamento cruzado anterior. Engraçado ou triste isso? Seria engraçado de repente, se isso acontecesse somente com nossa profissão.

Tentei no último domingo ajudar minha filha no estudo de geografia, aproveitando meu dia de folga. Logicamente, pedi seu livro antes para estar preparado para possíveis questionamentos, os quais certamente já não conseguiria responder. Terminei então o referido capítulo e aguardei que ela chegasse do shopping com a mãe. Qual não foi minha surpresa, quando ela me disse: “Não pai, este livro é óbvio que já sei, mas a professora pediu para que agente procurasse na internet o que está acontecendo agora no Paquistão”. Ou seja, ingenuidade minha ao querer me atualizar na geografia política atual enquanto minha filha estava no shopping. Ao menos ela me deixou atualizado sobre quanto havia gastado no meu cartão de crédito.

Além dos milhares de artigos médicos que surgem diariamente, e além da internet já presente no ensino médio, estão querendo atualizar até o nosso velho português. Não poderei ter idéias como antigamente porque elas perderam sua força com a ausência do acento. Se eu tiver enjôos pelo menos deverão ser mais suaves com a ausência do circunflexo. Agora é que não conseguiremos mesmo parar, porque pára perderá seu agudo. Lá se foram os tremas, permanecendo apenas – que contradição – àqueles das palavras estrangeiras. Não ficarei mais tranqüilo sem meu trema. Estão atualizando a língua que aprendi minha vida inteira!

Não sei mexer no meu aparelho celular quando dá defeito porque o manual é grande e não tenho tempo. Não sei sobre as minhas tarifas bancárias porque ao perguntar para a gerente, a mesma me dá um folheto com o endereço virtual para que eu me informe. Não sei sobre as bandas que meus filhos ouvem porque só escutam no MP3 após fazerem download, deixando nosso som subutilizado. Acho que em pleno ano de 2009 estou ficando igual ao atual presidente... as coisas acontecem e não sei de nada.

Estou em processo de transformação de conceitos. Tentarei a partir de agora deixar de ser tão conservador. Acho que não terei mais moral ao pedir para meus filhos saírem da internet e irem pegar o livro, se a própria escola orientou tal conduta. Não procurarei mais informações médicas nos meus livros e gastarei um pouco mais com os sites que me darão acesso aos artigos. Deixarei de ver o futebol no domingo para estudar o manual do meu aparelho celular, antes que o mesmo fique obsoleto demais. Vou acessar mais o conteúdo jornalístico dos sites para me atualizar no contexto político mundial. Comprarei um MP3. Talvez me especialize em alguma área nesta altura da minha vida, pois não estou suportando mais tanta informação nesta infinita clínica médica.

Fazendo tudo isso, preciso também arranjar mais tempo do que o tempo que tenho. Preciso me recriar dentro deste mundo que, sinceramente, não sei se é mais o meu. Um ser desatualizado dentro da rapidez das atualizações.

Ao menos, ainda consigo escrever... mas me recuso a retirar meus acentos, colocar certos hífens antes inexistentes e retirar os que já estavam lá. Isso me faria perder ainda mais a tranqüilidade ... ou melhor, a tranquilidade.
Andrea Pio