28 de novembro de 2008

NO CORREDOR E FORA DA PADARIA

São onze horas da noite. Estou sentada num banco desconfortável neste corredor de hospital, cheio de gente e macas quebradas. E pensar que, aos 71 anos, me veria numa condição destas. Estou aguardando meu marido ser reavaliado pelo médico. Meu marido – que é oito anos mais velho do que eu – tendo que aguardar um médico tão jovem. Como ele é jovem. Mas não tenho raiva dele... como ter raiva de alguém cuja blusa branca já se encontra transparente pelo suor que contraria este frio... de alguém cujos olhos estão persistentemente arregalados, mesmo que sejam firmes as palavras que saem de sua boca.

Está esfriando. Acho que esta noite será ainda pior do que a última... minha coluna parece ter se unido a este encosto frio da cadeira. Temo que ao me levantar, minha coluna permaneça sentada. Deveria ter trazido aquele remédio que o farmacêutico havia me passado. Pelo menos não sentiria dor nesta coluna... assim seria menos insuportável ter que esperar. Não sei porque fui ouvir aquele médico do posto que me mandou parar de tomar anti-inflamatório por causa dos meus rins. Continuo urinando bem, e minha coluna aqui... doendo. Acho que ficar sem urinar não dói. Será que dói?

Olha só aquela outra senhora ali. Pela cor dos cabelos e pela pele ainda firme das mãos, certamente é bem mais jovem do que eu... talvez uns cinco ou seis anos. Ah, lógico que ela pinta aqueles cabelos. É nítido como alguns fios estão vermelhos. Poderia ao menos ter usado uma tinta melhor. Dona Terezinha me cobra R$20,00 e usa uma hena muito boa. Dura mais de um mês. Fico aqui pensando... Não entendo como, desde bem cedo sentada numa cadeira igual a minha, aguardando o atendimento do seu filho, continua mantendo esta pose de atriz da novela das oito. Onde ela acha que está? Naquele hospital que aparece na novela e que o Tarcísio Meira é o doutor? Diria até que a cadeira dela é um pouco pior porque o encosto tem um parafuso solto e os pés bem mais enferrujados. Percebi que quando chegou ficou olhando para minha cadeira. Tive que esperar duas horas para ir ao banheiro, mesmo morrendo de vontade, até que essa senhora arranjasse uma cadeira para ela. Melhor ficar sem urinar do que ficar em pé depois. Por que fui ouvir aquele médico? Se tivesse tomado mais anti-inflamatório poderia estar aqui sentada sem dor na coluna, e nem precisaria mais levantar para ir ao banheiro. Ele disse que eu não iria mais urinar mesmo. Olha ali, olha ali! Ela tirou o batom da bolsa. Que batom mais feio, rosa choque. Deve ser da filha dela... Da filha não, da neta. Coitado do filho dela. Ouvi dizer que está com um negócio na barriga que precisa ser operado. Acho que é... apendoíte, apendicite, apendoite. Não sei. Mas precisa ser operado. Pelo menos ele não está sentindo dor mais. Coitado... e a mãe passando batom, se achando a atriz da novela das oito. E se o médico ainda fosse o Tarcísio Meira... valeria a pena eu ficar aqui também nesse frio, com esta coluna doendo. Mas não passaria batom rosa.

Mas como eu ia dizendo, não consigo entender como posso, depois destes anos todos, estar numa situação destas. Trabalhei minha vida toda. Estudei para ser professora de português, mas como tive cinco filhos não valia a pena mais sair de casa. Então depois de dar aula por dez anos, comecei a dar aulas particulares em casa. Hoje nem posso fazer isso porque os alunos estão vendo muita coisa naquela tal de internet. Acho que esta internet é invenção do demônio para acabar com o emprego das pessoas. Há quarenta anos meu marido trabalha na mesma padaria, na esquina da minha casa. Antigamente ele fazia os pães, mas hoje só vende mesmo. O que ele mais gosta de vender é o sorvete. Adora quando alguém vem comprar sorvete. Por que ele adora? Ah, porque a máquina de sorvete fica bem na porta da saída, e assim ele consegue sair de trás do balcão um pouco e andar. Ele, pelo menos, me diz isso. Já sinceramente, acho que ele gosta de espiar a moça morena que vende churros em frente à padaria. Mas, espiar não tem nada não. Também espiaria o Tarcísio Meira se ele fosse o doutor.

O senhor quer um pão? Trouxe vários aqui em minha sacola. A cantina deste hospital cobra quatro reais o sanduíche e três reais o suco de laranja. Como pode cobrar três reais no suco de laranja? E o sanduíche? O pão é muito pior do que o do meu marido, e o queijo é daqueles bem amarelos, quase vermelhos, proibitivos para uma pessoa que não pode comer sal. A única vantagem aqui é que não tem cachorro olhando do lado de fora, enquanto comemos.
Nossa, chegou mais uma pessoa doente. Não tem lugar mais nesse corredor. O que será que acontece quando não cabe mais gente nem no corredor do hospital? Será que colocam no banheiro? Mas aquele banheiro, vou contar para o senhor... é uma vergonha. Não tem como guardarem gente ali não. Aqui está um cheiro ruim, mas lá é bem pior.

Mas como eu ia dizendo, não consigo entender como, depois destes anos todos, não tenho direito nem de ver meu marido ser tratado com dignidade. A gente paga tantos impostos neste país. Não sei muito bem quais os impostos que a gente paga, mas sei que são muitos. O pão, por exemplo, aumenta quando o imposto sobre a farinha aumenta. E quando o pão aumenta, as pessoas compram com o mesmo salário de antes... Que não aumenta. Uma vez perguntei para o namorado de minha filha, um cidadão bem estudado, o que a gente levava em troca com estes impostos todos. Ele me disse que isso era importante, porque quando ficássemos idosos, poderíamos ter alguns direitos na saúde, no transporte, na aposentadoria. Ainda bem que minha filha foi esperta de ter terminado com este moço.

- A senhora que é a esposa do Sr. Moisés?
- Sim.
- O médico pediu para que avisasse. Os exames ficaram prontos. Ele já vem conversar com a senhora, mas precisa terminar as consultas de urgência.
- Minha filha, estou aqui aguardando desde ontem. O que vou poder dizer? Obrigado? Eu e meu marido vamos continuar aguardando. Ainda bem que ele está dormindo agora.
- Chamaremos a senhora assim que ele terminar então.

Coitada. Acho que fui indelicada com ela. Afinal, deve estar cansada de correr para lá e para cá. Muita gente. Poucos médicos, enfermeiros, assistentes. Realmente não sei como eles conseguem trabalhar assim o dia todo. O senhor imagina? Nós estamos nesta situação aqui, mas quando tudo acabar iremos para nossa casa. E eles têm que vivenciar essa realidade todos os dias. Bom, pelo menos os médicos ganham bem. Se bem que... Tem um médico que sempre vai à padaria. Ele trabalha tanto, e está com aquele mesmo carro. Perguntei porque ainda não tinha filhos e ele respondeu que ainda tinha que esperar um pouco. Não tinha dinheiro para manter uma família aqui no Rio de Janeiro. É tudo muito caro. E a esposa dele não ganha muito. Fico pensando... Será que ele é bom médico mesmo? Já não é tão novo... e com aquele carro velhinho. Não deve ser bom médico. Médico bom tem carro caro. Já ouvi falar isso. Quando eu era moçinha, o médico da minha cidade era o que tinha o melhor carro. E ele era bom. Virou até deputado depois.

Estou preocupada com meu marido. O médico já me adiantou que provavelmente vai precisar fazer um exame para o coração que é perigoso. Parece que colocam um caninho no braço que vai até o coração e vêem como está lá. Mas disseram que terá que marcar o exame depois que formos embora, pois demora para conseguir agendar. Como está a tecnologia, não é mesmo? Um caninho que coloca no braço e vai até o coração. Por outro lado, não sei para que serve esta tecnologia toda. Passamos esta vida toda pagando impostos, trabalhando, para ficarmos aqui desta forma, como se fôssemos cachorros deixados presos fora dos estabelecimentos. É como se estivéssemos fora de um sistema porque não temos direito a ele. Os cachorros não entram na padaria. É como se e sistema fosse a padaria. Mas não somos cachorro ora estas. É como se nossa indignação fosse ouvida como latidos. Ninguém presta atenção, ninguém quer entender o porquê. Pelo contrário, preferem se afastar para não serem afetados, até que o próprio sistema os deixe de fora.

Então, se este exame do caninho que vai até o coração é tão importante, como vamos esperar quase dois meses? Estou muito preocupada. Meu marido e meus filhos são tudo o que tenho. E o que posso fazer? Dois dos meus filhos estão estudando ainda. E o irmão mais velho ajuda nos estudos. Fico preocupada porque nenhum deles têm plano de saúde. Fico muito preocupada. O senhor não acha que deveríamos ter o direito de não pagar os impostos? Afinal, poderíamos usar este dinheiro e pagar um plano de saúde decente. Embora tenha visto na televisão que os planos de saúde também estão deixando a desejar.

Olha ali o médico de novo. Como parece cansado. Já está de madrugada e ele ainda não parou. Engraçado... é o mesmo médico de agora a pouco, mas já está parecendo tão mais velho. Deve ser difícil trabalhar assim, mesmo se ganhar bem. Deve ter a mesma idade do meu filho do meio, Teodoro. Mas o Teodoro parece estar muito mais novo. Talvez a responsabilidade envelheça muito a pessoa. Talvez a responsabilidade envelheça os sentimentos da pessoa. Está vendo aquele rapaz de blusa listrada ali em pé? Pois então, há cerca de quatro ou cinco horas ofendeu tanto este médico que me fez pena. Eu imagino que o rapaz está desesperado porque sua filha quebrou a perna e ainda está ali sem terem feito nada. Mas parece que nem é este médico que cuida disto. Já chamaram o outro, mas ainda não chegou. Vai ver está no outro corredor lotado, e ainda não conseguiu chegar neste.

Não sei o que o senhor pensa sobre isso, mas tenho medo deste mundo em que meus netos irão crescer. Um mundo em que desde muito pequenos aprendemos que nada é fácil. Que devemos correr atrás das coisas e não esperar que aconteçam. E depois que passamos a vida toda lutando, a gente se pergunta que direitos será que temos? Hoje em dia não se pode nem morrer em paz. Não se pode nem viver com a mínima dignidade. A gente vê no jornal o repórter falando que a saúde no Brasil é uma das melhores do mundo porque aqui não pagamos nada, é tudo de graça. Mas como não pagamos? E os impostos? Ou será que aquele namorado da minha filha bem estudado era mentiroso? Lembro bem que ele me disse que alguns impostos eram exclusivos para a saúde. E para onde vão? Talvez seja melhor morar nestes países onde a saúde não é de graça, mas pelo menos não se paga tanto imposto. Daí dá para guardar um dinheirinho para quando precisarmos de atendimento.

Que bom, ele está sendo substituído por aquela médica. Se ela está chegando agora não deveria estar com este semblante tão cansado. Talvez seja ela que veja os exames do meu marido então. Será que já não vai estar tão cansada para vê-los? Bom, pelo menos ela parece ser mais experiente do que o médico mais jovem dos olhos arregalados e da fala segura. Não ouvi a voz dela, mas pelo menos os olhos não são arregalados. Como esta coluna está doendo. Acho que vou pedir um remédio quando ela me chamar. Não estou agüentando. Daqui a pouco sou eu que estarei em uma maca também. Mas parece que não tem mais macas.

Como está frio. Não sei como estas baratas não se escondem no frio. Acho que estão com fome, e com toda aquela sujeira na frente do hospital, é fácil chegarem aqui. Ou será que estão sentindo o cheiro do meu pão guardado? O senhor não vai querer o pão? Não vejo a hora de sermos atendidos logo. Se demorar até amanhã pela manhã, levarei meu marido embora. Vou pegar umas economias que tenho na poupança e levá-lo para outro hospital. Estava guardando para a reforma do banheiro, mas pode esperar. Depois de ver este aqui, estou achando o meu bom demais, mesmo com aquela infiltração toda.

Olha lá, aquela senhora está se levantando da cadeira com um parafuso a menos do que a minha. Gostaria muito de saber o que passa na cabeça dela, para vir com um salto tão alto daquele para um hospital assim. Olha como ela anda. Olha só, está batendo na porta do consultório. A médica deixou entrar. Ah, se esta médica atender o filho dela antes do meu marido, vou lá brigar e ela vai acabar arregalando aquele olho. Estou começando a achar que médico de olho arregalado é que se preocupa. Talvez não seja sinal de insegurança como pensava. Acho que esta médica vai atender o filho dela porque vai prestar atenção na blusa vermelha com botão dourado e no sapato caro. Posso não estar com os cabelos pintados e minha roupa pode ser mais simples, mas aqui é por ordem de chegada. Onde é que já se viu isso? Ela está saindo. Parece estar chorando. Está chorando sim. Coitada. O filho nesta situação. Que mãe não choraria? Até que seus sapatos são bonitos. Vai ver que ela veio direto do trabalho e nem pode deixar de trabalhar. Coitada. Daqui a pouco vou lá ver se está com fome, e ofereço um pão doce. Tenho um aqui que é ótimo, tem até uma cereja no meio. Que cheiro ruim está aqui. Um cheiro ruim mesmo, parece estar aumentando. Lá vem a funcionária de novo. Vai dizer que os exames estão prontos. Talvez já tenha se esquecido que falou comigo, já que devem ter mais de cinqüenta pessoas aqui. Não vou ser indelicada desta vez. Vou tentar. Qualquer coisa o senhor me faça um sinal.

- Olá, boa noite senhora.
- Boa noite. Já sei, os exames do meu marido estão prontos e depois o médico, que já é médica, vai me atender. Antes do amanhecer. Antes que o frio congele minha coluna. Antes que as baratas comam a cereja do pão que entregarei para a mãe do menino, aquela que pinta o cabelo com uma tinta ruim e usa salto alto porque deve ser exigência do seu trabalho. Já sei. Vou esperar os exames, que mesmo assim, não são iguais àquele que é o mais importante, do caninho que colocam no braço e chega ao coração, e que é fruto desta tecnologia que não adianta nada, só é inventada com o dinheiro dos meus impostos, enquanto eu fico aqui esperando, sem meu anti-inflamatório que deveria ter tomado, ao invés de seguir as orientações daquele médico que cismou com os meus rins.
- Senhora, não sei o que está dizendo. É que gostaria de saber se conhece este senhor.
- Este? Coitado, acho que dormiu. Estava este tempo todo conversando com ele para passar o tempo, mas acho que também dormiu. Ele estava sozinho, não vi ninguém aqui hoje. Ontem vi um rapaz que o trouxe, que estava com um celular. Mas depois não o vi mais. Vou me calar agora e deixá-lo em paz.
- Senhor? Senhor? Meu Deus, ele está gelado. Acho que está morto. Vou chamar ajuda.


- Meu bem, meu bem, acorde. Acorde pelo amor de Deus meu bem.
- O que foi mulher. O médico chamou? Por que está chorando?
- Não, só queria garantir que estava bem. Pode voltar a dormir. Mas... não feche os olhos agora. Coma este pão doce que você gosta.


Andrea Pio

10 comentários:

Clayder disse...

Parabéns por mais um belo texto. Bem real, principalmente para quem já passou de médico a paciente, e teve que encarar o outro lado! É isso mesmo, a nossa dura realidade brasileira, devaneios da nossa mente, bem distante dos corredores limpos, asseados e confortáveis dos hospitais privados!!...

Renata disse...

Andrea,
Só você mesmo para escrever assim. Muito bom.
É engraçado pensar no outro lado. Já tivemos por várias vezes naquela situação do médico de camisa suada que você descreveu. Mas talvez pior do que a nossa situação é a de quem nos espera.
Esta é a situação dos hospitais no RJ, e quem sabe do país todo.
Genial o título e a fotografia.
Beijo!

monocelho_mann disse...

suco de laranja a 3 reais nao tem cabimento...
ademais, o cachorro só entra na igreja se a porta estiver aberta...
realmente a medicina torna nossa vida indigna, pra quem esta dos dois lados da mesa...

monocelho_mann disse...

correção: tem tornado...

Rafael disse...

parabens andreia, escrve bem mesmo... e eu achando que era mentira, rs
me lembra de levar pra vc um livro sobre historias das artes e medicina.

Andrea disse...

Andrea, vc é mesmo muito talentosa! Não sabia q vc escrevia tão bem, daqui a pouco vou ver um livro seu de crônicas na livraria!! Também gosto de escrever mas ainda não aderi aos blogs! Quem sabe um dia...

Beijos,

Déia.

Clayton disse...

Na teoria é bom, mas na prática deixa muito a desejar. Porém, para nos dar algum conforto - seé que isso é possível - gostaria de fazer um comentário sobre o Manage Care, sistema de saúde dos EUA. Tal sistema exclui mais de 50.000.000 de americanos que não conseguem pagar seguros. Os mesmos são deixados nas ruas, morrendo e isso não chega até nós. Recomendo a todos a assistirem um documentário do Michael Moore chamado "Sicko". Nele também podemos ver a ótima realidade dos sistemas de saúde canadense, inglês e francês, que são exemplos.
Abc!

Andrea Pio disse...

Oi pessoal.
Muito obrigada mesmo pelos comentários maravilhosos. Estou muito feliz MESMO.
Acho que todos concordamos no quão problemático é nosso Sistema de Saúde. Teoricamente o SUS é o sistema mais justo, mais igualitário, mais democrático. Mas na prática não consegue se manter como deveria. Sinceramente, não sei se o problema maior é a péssima gestão de saúde, ou se é falta de investimento mesmo neste setor. Talvez um pouco dos dois. Infelizmente, um país que não investe em saúde é um país doente.
Ps: Zézinho, também não concordo com o sistema de saúde dos EUA. Mas achei importante colocar tal questionamento na cabeça da personagem. Procurarei ver este documentário "Sicko" que indicou.

José Carlos Araújo disse...

"Como ele é jovem. Mas não tenho raiva dele... como ter raiva de alguém cuja blusa branca já se encontra transparente pelo suor que contraria este frio... de alguém cujos olhos estão persistentemente arregalados, mesmo que sejam firmes as palavras que saem de sua boca."

Dra, Andrea,

Daqui a exatamente quatro horas, estarei no plantão como este colega da sua crônica.
Vamos ver se encontro alguma senhora no corredor tão faladeira.

Abraço,
José Carlos

Juliana Chaves disse...

Agora é minha vez...
Em breve, espero ter tuas sábias palavras dentro de um livro ao lado da minha cabeceira...
Beijos