26 de novembro de 2008

O PACIENTE DOS BELOS SAPATOS


- Jorge, pode entrar.
- Bom dia doutor.
- Bom dia Jorge. Sente-se por favor. É sua primeira consulta comigo. E então, o que está acontecendo para que venha me procurar?
- Olha doutor, vou ser sincero. Há dois meses venho me sentindo cansado, sem apetite, sem disposição para trabalhar. Neste último mês tenho me sentido ainda pior. Quando ando rápido, ou levanto algum peso, sinto falta de ar. Várias pessoas da minha família têm notado que estou pálido. Mas não sinto dor, não tive febre. Não sei o que está acontecendo. Sempre tive uma saúde de ferro, nunca me senti assim.
- Não se preocupe Jorge. Nós vamos ver o que está acontecendo. Vou inicialmente fazer algumas perguntas para conhecê-lo um pouco mais, e depois vou examiná-lo.
- Então doutor. O senhor é o terceiro médico que estou vindo. O primeiro foi um médico amigo da família que pediu exames de sangue. Ele viu que eu estava com anemia e me receitou sulfato ferroso. Os outros exames ele disse que estavam normais. Não mostravam infecção, a glicose estava normal e o colesterol também. Ele me solicitou outros exames, mas preferi procurar um cardiologista. Fiquei com medo de ser algum problema no coração. E além do mais, acho que só os exames de sangue que ele solicitou de novo não seriam suficientes. Imagina, nem um raio X foi solicitado doutor.
- Você trouxe os exames? Vejo após examiná-lo.
- Trouxe doutor. Trouxe os exames do cardiologista também, dentre eles um eletrocardiograma e outro exame para ver o coração, que esqueci o nome.
- Ecocardiograma?
- Esse mesmo doutor. Então como eu ia dizendo para o senhor. Fiz os exames, voltei ao cardiologista que disse que meu coração estava normal. Mas viu pelo exame no sangue, que meus rins estão com algum problema. Por isso me encaminhou para o senhor. Eu até estranhei, porque nunca tive problema para urinar.
- Entendo. Então vamos conversar um pouco. Estou vendo pela ficha que preencheu que tem 58 anos, é publicitário e é natural do Rio de Janeiro. É isso mesmo?
- Isso mesmo doutor.
- Você disse não ser hipertenso, mas mede a pressão regularmente?
- Costumo ir ao médico da empresa que trabalho e nunca deu alterado não. Pelo menos ele sempre me disse que estava tudo bem.
- Fuma?
- Não fumo nem bebo. Só umas cervejinhas aos finais de semana.
- Tudo bem. Em relação a sua família, seus pais e irmãos possuem alguma doença?
- Meu pai é diabético há pouco tempo. Já está bem idoso. Minha mãe tem artrose no quadril. Meus dois irmãos não tem nenhuma doença não.
- Jorge, você me disse que nestes últimos dois meses tem se sentido cansado, indisposto, que sente falta de ar ao fazer exercícios. Não teve febre, ou outros sintomas? Teve alteração no peso?
- Pois é doutor. Não tive febre. Não tive dor em lugar nenhum do corpo e meu peso também não alterou.
- Tem observado alguma alteração em sua urina?
- Doutor, para falar a verdade não reparei não. Acredito que esteja normal, porque se estivesse alterada teria notado. Também não acho que esteja urinando em maior ou menor quantidade do que antes. E nem sinto nada. Agora o que tenho tido muito é prisão de ventre.
- Certo então. Sente-se ali para eu examiná-lo.


- E então doutor? A pressão está boa? O restante do exame está bom?
- Olha Jorge, sua pressão está boa sim. Mas você está descorado e apresenta edema nas pernas. O restante, pelo exame clínico, não mostra alterações. Deixe-me ver os exames que trouxe.
- Estão aqui. Só não tem o Ecocardiograma que mencionei.


- Jorge, agora vejo porque o colega o encaminhou para mim. Realmente os dois exames que estão relacionados à função renal estão alterados.
- Uréia e creatinina?
- Isso mesmo. Não estou encontrando aqui exame de urina. Chegou a fazer?
- O cardiologista me deu o pedido para que trouxesse para o senhor, mas ainda não fiz. Dei prioridade ao Ecocardiograma.
- O exame de urina será fundamental para nós. Vamos repetir ainda a uréia e creatinina, e vou solicitar uma ultrassonografia de rins e vias urinárias.
- Doutor, poderia solicitar uma ressonância nuclear magnética?
- Por que?
- Estou fazendo muitos exames e não descobrem o que eu tenho. Mesmo que seja alguma coisa nos rins, a ressonância já mostra logo.
- Não é bem assim Jorge. Não sei onde obteve esta informação, mas estes exames que solicitei são muito mais importantes neste momento. A RNM não vai me mostrar o que procuro.
- Puxa, já fui até ver o preço. Conseguí barato, por R$ 700,00 com desconto. O senhor não solicitaria pelo menos para eu ficar mais tranqüilo então?
- Quem te orientou a fazer RNM Jorge?
- Um amigo me falou que fez esse exame. Vi depois na internet, num site de um laboratório, que era um dos melhores exames para ver o corpo todo.
- Jorge, preste atenção. Você tem gasto com exames, consultas, mas porque foram necessários. Ter um gasto desnecessário para fazer um exame que não tem indicação, só para ficar mais tranqüilo, porque viu na internet ou ouviu falar, isso não faz sentido. Faça estes exames que conversaremos ao retornar na próxima consulta.
- Então não quer solicitar a Ressonância mesmo?
- Não Jorge. Quero fazer o que é melhor neste momento para descobrirmos o que tem.
- Tudo bem. Então na próxima consulta se não descobrir, o senhor solicita a ressonância.
- Jorge... Não esqueça de agendar a consulta para o mais rápido possível após a realização dos exames. Falarei com a secretária para encaixá-lo caso não tenha mais horário.
- Obrigado então doutor.
- Até breve. Se houver piora dos sintomas, ligue mesmo antes dos exames ficarem prontos.
- Tudo bem. Obrigado.


- Olá, queria acertar a consulta.
- Senhor Jorge, não é isso?
- Sim. O doutor pediu também para já deixar uma consulta marcada.
- Sim senhor. Ele já me disse para encaixá-lo assim que o senhor ligar, após realização dos exames.
- Quanto é a consulta mesmo? Esqueci de perguntar antes.
- R$ 180,00
- Nossa... Consultinha cara esta hein? Tinha que ter feito medicina e não publicidade. Olha, paguei este mesmo valor por este sapato aqui, que até importado é. E ainda saí sem o pedido do exame mais importante. Uma consulta tão demorada e ainda terei que voltar não sei quantas vezes. Se eu fizesse a Ressonância não precisaria nem gastar tanto com médico. Pode dividir esse valor em dois cheques pelo menos?


Andrea Pio


6 comentários:

monocelho_mann disse...

a medicina esta se tornando a prostituiçao do seculo 21.

vai pagar plano de saude (=atravessador) seu trouxa, vai pegar infecção de cateter seu lazarento

Clayder disse...

Triste é saber que somos nós mesmos os responsáveis por essa situação, e não a midia ou internet que seja...Esquecemos o mais importante, que é ouvir o paciente, fazer uma anamnese básica. Aí o entulhamos com pedidos de exames e nos gloriamos nisso. Os valores mudam, e nós atiramos no pé! E o pior é que são belos sapatos...

Clayder disse...

Deinha, parabéns pela iniciativa!!

Clayton disse...

A banalização da informação, a propaganda laboratorial e os próprios profissionais da área de saúde contribuem para este tipo de situação. Vivemos uma era em que a incompetência é premiada e gegra mais recursos, já que médicos pedem mais exames muitas vezes desnecessários e prescrevem medicamentos de alto custo, muitas vezes sem uma indicaçào precisa. Isto é muito observado em unidades de alta complexidade como as de Terapia Intensiva. Infelizmente é a realidade atual. Estamos caminhando para o colapso do sistema de saúde, público, privado, bem como as operadoras, também culpadas, já que remuneram muito mal os médicos.

Ju irada disse...

Assim vç me faz chorar!!! De nervo!!! Somos vítimas dos convênios e de pacientes exigentes e mal informados pela internet!!

Andrea Pio disse...

Luis e Ju,
Estou ao lado de vocês na indignação direcionada ao paciente.
Clayder,
Concordo que também somos responsáveis por esta situação "mercantilista" da Medicina. Ao mesmo tempo, penso que o que mais falta em nossa classe é o senso crítico... estudamos demais, nos dedicamos demais ao conhecimento e aos nossos pacientes mas... questionamos pouco. NOs deixamos levar por toda esta onda absurda de planos de saúde, laboratórios e indústria de medicamentos. São os três fundamentais hoje em dia... mas não devem ser eles os determinantes da nossa profissão. Somos nós.
Clayton,
Acredito que sua realidade, como intensivista, te proporciona levantar estes questionamentos que deixou. Neste setor, onde a complexidade é maior, certamente muitos exames e medicamentos de alto custo sao necessários, já que é onde se encontram os pacientes mais graves. Mas... tem o outro lado também. Há sempre um limite de gastos, mesmo em um nível terciário, o qual nem sempre é respeitado. Só a remuneração dos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, assistentes de enfermagem)é que bem limitada. É o antigo pensamento "sacerdotal" da figura do médico.
Abraço BEM APERTADO em todos.