26 de janeiro de 2009

SOPA SEM CARNE PARA MUITAS PESSOAS



- Então é isso Sr. Humberto.

- Será que o Sr. poderia explicar esta parte dos exames novamente doutor? Não entendi muito bem.

- Não tem problema. Explicarei novamente para o Sr. entender. Este mal estar, estas náuseas que está sentindo, assim como a falta de apetite são conseqüência da Insuficiência Renal Crônica. Quando o senhor começar a dialisar vai se sentir bem melhor.

- O que é diálise?

- Seu rim, como não está funcionando mais, não filtra as substâncias ruins que estão no seu corpo, assim como não consegue eliminar toda a água que ingere. Estas substâncias ruins, como a uréia, são tóxicas e são perigosas. A água que não é eliminada fica acumulada, sendo perigosa também. Se o senhor perceber, verá que suas pernas estão mais inchadas.

- Meu sapato está mesmo apertado. Mas... sinto que urino bem. Ainda não entendi o que é diálise.

- As máquinas de diálise, tanto a peritoneal quanto a hemodiálise, realizam a função dos rins do senhor. Vão tirar a água e as substâncias tóxicas. Haverá necessidade de outros remédios que o SUS fornece, não terá que comprá-los. Em sua próxima consulta mostrarei com mais detalhes para decidirmos juntos qual o melhor método no seu caso. Seria interessante que trouxesse alguém da sua família também.

- Já ví um cidadão lá na feira que faz esta peritoneal aí. Vive com um caninho na barriga. Ele diz que não incomoda nada... nem imaginava que era por causa dos rins, já que eles ficam aqui atrás perto da coluna e não na barriga. Não queria andar com nada na minha barriga não. Acho que esta outra aí que o senhor falou é melhor. Mas... ainda não entendo. Minha pressão sempre foi alta, mas nunca cheguei a sentir nada. Só duas vezes fui ao hospital com dor de cabeça e o médico aumentou a dose dos remédios. Mas só isso. Como é que pode? Nunca senti dor nos rins? Nunca o médico falou nada sobre os meus rins doutor. Nem pediu exame porque nem senti nada.

- Os rins geralmente são órgãos silenciosos Sr. Humberto. E são muito afetados por duas doenças também geralmente silenciosas, que são a Hipertensão Arterial e o Diabetes. No seu caso foi a hipertensão, por anos mal controlada, que o prejudicou.

- E se eu não quiser fazer a tal diálise? Nâo estou me sentindo tão mal assim. Deixo de comer carne, se for o caso.

- A redução da carne será realmente importante para retardar o início da diálise, como havia explicado. Mas esta será inevitável. O senhor seguirá estas orientações que já lhe falei, e a nutricionista ajudará na elaboração da dieta. Ao sair daqui marque a consulta com ela. Tem uma aqui no hospital.

- Doutor, não tenho condição de comer outra coisa além do que como todos os dias. O dinheiro é contado. Como na feira mesmo. E se eu fizer esta diálise aí, isso também ocupará meu tempo. Preciso trabalhar porque sou autônomo. A aposentadoria não é suficiente. Se não trabalho, o dinheiro não entra.

- Eu sei Sr. Humberto. O senhor terá que adaptar-se a este novo tipo de vida e arranjar um trabalho que se encaixe em suas limitações. Não acabou o mundo por causa disso. Apenas terá que se adaptar a esta nova realidade.

- Meu bolso é que não vai se adaptar a esta nova realidade doutor. Mas... obrigado. Vou indo então porque sei que tem muita gente na fila esperando para ser atendido. Hospital público é assim mesmo. No posto de saúde do meu município nem conseguí marcar a consulta. Mas tinha que tirar estas dúvidas porque demorei três meses esperando para ser atendido pelo senhor. E agora, nem sei quando terá vaga. São estes remédios aqui que terei que tomar? O senhor mudou o remédio da pressão? E este aqui, para que serve? Tem no posto?

- Mudei sim, porque os que o senhor toma não estão sendo eficazes. Provavelmente não terá no posto, mas o senhor veja se consegue comprar. Este outro remédio aqui é um diurético, que ajudará a eliminar a água que está no seu corpo. Na próxima consulta traga estes exames e não esqueça de trazer seu filho ou sua esposa. Caso passe mal antes da consulta, vá na emergência e leve os exames que já possui.

- Sim senhor. Só não sei se minha esposa vai poder vir. Ela cuida de um senhor bem idoso que não tem com quem ficar. Trabalha de segunda a sábado de manhã até a noite. E meu filho dirige ônibus o dia todo. Mas vou tentar.

- Vou aguardá-lo então daqui a um mês.

- Obrigado doutor.



- Boa noite meu bem. Cheguei tarde hoje porque os filhos do Seu Geraldo demoraram a chegar. Ele está tão fraquinho. Nem está comendo direito. Hoje para dar banho nele foi um parto.

- Boa noite mulher.

- Foi ao médico? Conseguiu ser atendido hoje? O que ele falou sobre o rim? É o rim mesmo ou o coração que está ruim?

- O rim.

- Está desanimado. Nem se mexeu desde a hora que cheguei. Me diga homem, o que o médico falou?

- Ah mulher. Este médico é muito novo. Não sabe das coisas da vida. Imagine só o que ele disse. Falou que este meu problema de perda de apetite e náuseas e que estas pernas inchadas são porque os rins quase não funcionam mais. Disse que foi a pressão alta a responsável por isso. Mas nenhum médico até hoje tinha falado nada sobre meus rins. Depois ele disse que vou ter que fazer uma tal de hemodiálise que tira a água e as coisas ruins do nosso corpo. A maior coisa ruim que tenho no meu corpo atualmente é este cansaço de ter que ficar o dia todo na feira tentando vender estas frutas todas. Ele disse que esta diálise pode ser pela barriga ou pelo sangue, depois de ligarem minhas veias do braço. Eu é que não vou ficar com um troço pendurado na minha barriga. Esta tal de hemodiálise é três vezes por semana... imagine só se posso deixar de ir três dias para a feira. Não vai dar nem para pagar a conta da luz.

- Mas homem...

- Deixa eu terminar mulher. E no final das contas ele mudou meus remédios da pressão. Dos cinco que eu tomava ele tirou três e colocou outro. Passei na farmácia para ver o preço, já que este não tem no posto. Não tem condição de comprar para o mês todo. O remédio para aumentar a urina conseguí no posto. Mas o outro não vou tomar não. Ele acha que é fácil assim arrumar dinheiro. Pensa que é fácil.

- Mas homem... a gente tem que dar um jeito. Se o doutor falou que vai ter que fazer essa diálise aí, então não tem jeito. Agente vai ter que pagar?

- Não. Ele disse que o SUS paga e que ficarei numa clínica próxima daqui. Mas...

- Então meu bem. Vamos agir com calma. O mundo não vai acabar. Eu saio deste emprego e aceito trabalhar na venda da Dona Tereza. Ela é muito chata mas valerá a pena. Pelo menos não temos que pagar esta máquina aí que é de graça.

- De graça nada. O povo é que paga com os impostos.

- Vamos dormir. Amanhã é um outro dia. A gente vai pensar com calma e tudo dará certo. Vamos tomar uma sopa. Já vou fazer. Deixa só eu trocar esta roupa.

- Não coloque carne na sopa. Não vou comer mais carne. Vou tomar o caldo. Aproveito e tomo agora este remédio que ele passou para aumentar a urina. Não vou esperar até amanhã.

- Tudo bem. Não colocarei carne.

- Amanhã vou procurar o doutor que me encaminhou a este médico dos rins. Vou pedir para me encaminhar para outro. Para um mais experiente. Até lá não como carne. E também não vou mais tomar aquele suco de melancia da feira. Vai ver que é ele que está prejudicando meus rins. Ano passado eu estava bem e não tomava este suco da feira. Vou tomar um banho agora. Estou com dor na nuca de novo. Deve ser a pressão alta. Talvez melhore com a água fria.

Andrea Pio

7 comentários:

Sabrina disse...

Então Andrea,
Estava aqui pensando. Preciso pedir mais creatinina para os pacientes... Fico sempre pensando que isso é coisa de nefrologista.
Brincadeira... rs...
Adorei o texto!
Beijão e saudades!

Helena disse...

Entrelinhas Desta Realidade:
Sinto e lamento o fato de o Sr. Humberto ter apresentado este problema de saúde. Porém, enxergando o problema do Humberto em sua totalidade, contextualizando a sua situação, quero dizer que, se ele tivesse nascido num tempo anterior e tivesse apresentado esse problema de saúde antes de 1949, quando, pela primeira vez no Brasil, o Dr. Tito Ribeiro de Almeida, utilizou um rim artificial para tratamento de pessoas com problemas nos rins, ele, Sr. Humberto, não teria tido chance de correr atrás de sua sobrevivência. Por outro lado, os dados do IBGE mostram que a expectativa de vida salta de 62,6 em 1980 para 72,78 em 2008. A pirâmide estária mostra que, desde 1940 (início do desenvolvimento acelerado das Ciências, Técnicas etc.) o grupo etário com 60 anos (ou mais) é o que, proporcionalmente mais cresce na população brasileira. No ano de 1950 a expectativa de vida em S.Paulo era de 57 anos em 1982 de 70 anos. Estes dados mostram que, mesmo com a vergonhosa propriedade da terra,com a poluição dos rios etc., mesmo diminuindo-se as chances de se conseguir o peixo em detrimento da carne, as Ciências, Tecnicas Serviços etc. têm dado a possibilidade de se conseguir mais anos de vida. É claro, obvio, que precisamos de um Estado mais bem organizado em todos os Setores. Se, o Setor de Saúde produzisse e oferecesse os remédios ao Sr. Humberto, ele ria precisar batalhar menos por sua possibilidade de vida

Andrea Pio disse...

Sabrina,
Obrigada pelo comentário. Concordo com você quando diz que pedirá creatinina com maior freqûencia. Cá pra nós, assim como a glicemia em jejum e o hemograma, tão solicitados, a creatinina deveria ser um exame bem mais difundido. Os atuais programas de nefroproteção contribuirão para isso. Espero que sim!

Mãe,
Adorei seu comentário.
Concordo com esta análise que fez sobre o texto. Acrescentando ainda, a população portadora de Insuficiência Renal Crônica, incluindo a que necessita de diálise, só tende a aumentar com a maior expectativa de vida. Não sei qual será a solução encontrada pelo SUS progressivamente, para este grave problema da saúde pública.
Beijo.

Marcos Azevedo disse...

Andreia,
A solução que o SUS poderia ter futuramente, e talvez até atualmente, não é impossível. A grande questão é a gestão mal feita, o desvio de dinheiro público, o superfaturamento com não prioridades. É isso aí. Vamos preparar a sopa sem carne pra todo este povo?
Abraço. Ótimo blog.
Marcos

piririm pororom disse...

tal mae, tal filha...

o paciente e um tigre (menor).

mas segundo o contexto da cronica, nao foram os colegas que precederam a atençao medica que o entigreceram, nao oferecendo a melhor pratica medica?

Andrea Pio disse...

Piririm pororom é ótimo...

Não sei se podemos associar este comportamento do paciente unicamente ao "mau atendimento" dos médicos anteriores, que não pensaram neste órgão tão retroperitoneal que é o rim... Tal "pensamento coletivo" abrigado por muitos pacientes resulta de uma soma de fatores:
1- A má gestão na saúde pública, que não prioriza necessidades e não evita gastos (e desvios) desnecessários, associado ao pouco capital que é investido no setor de saúde pelo governo;
2- O envelhecimento da população (natural) e consequentemente, o aumento na prevalência das doenças crônicas.
3- Às campanhas preventivas deficitárias, que orientam a população a procurar o atendimento primário (e não terciário);
4- E finalmente, uma falta de preocupação de muitos da nossa classe, que não contribuem para o atendimento preventivo... fruto da educação médica que cada vez mais ensina "tratar", colocando a prevenção, como algo menos importante.
Valeu pelo comentário!

José Carlos Araújo disse...

Dra. Andrea,
Em seu texto, faço referência a seguinte parte:
"Dos cinco que eu tomava ele tirou três e colocou outro. Passei na farmácia para ver o preço, já que este não tem no posto. Não tem condição de comprar para o mês todo. "

Está muito difícil a prática da medicina hoje. Quando atendemos um paciente que já passou da fase em que a prevenção seria importante, torna-se necessário (muitas vezes) introduzir remédios que já são caros demais. Porque os que eles encontrariam no posto, já não são suficientes para controlar a pressao, o colesterol,o diabetes,etc.
Em algumas vezes há como evitarmos prescrevê-los. Já em outras, somos praticamente obrigados.

José Carlos