18 de fevereiro de 2009

UM BRINDE À VIDA

Já estava escuro quando Fátima chegou ao restaurante. Após confirmar no relógio que possuía quinze minutos a seu favor, entrou e procurou calmamente uma mesa longe da porta de entrada, por onde o barulho do trânsito entrava sem permissão. Não foi difícil a escolha. Optou por uma pequenina, com apenas dois lugares, nos fundos do restaurante. Deixou seu casaco sobre a cadeira e dirigiu-se para o banheiro, onde precisava retocar a maquiagem já desgastada e ajeitar os cabelos, úmidos pelas primeiras gotas de chuva que começavam a cair lá fora.


Ao retornar, refeita pela maquiagem, solicitou ao garçom um Shiraz, seu vinho preferido. Havia tempo desde a última vez que veio ao restaurante. Seis anos, mais precisamente. Ao pensar nisto, seus olhos encheram de lágrimas mais rapidamente que o vinho que preenchia seu copo. Interrompeu seus pensamentos, pois havia prometido a si mesma que não iria chorar. Não queria estragar este momento, aguardado por longos dezoito meses. Foi muito difícil conseguir estar ali, depois da discordância de seu marido e seus dois filhos, que preferiram não vir. Mas sentia-se feliz apesar disto.


Olhou mais uma vez o relógio. Os ponteiros já haviam percorrido mais vinte minutos desde a sua chegada. Resolveu não se preocupar ainda, afinal, a chuva era a maior inimiga do trânsito em São Paulo. Estava bom o vinho, na temperatura ideal. Olhou para a entrada de frios disposta na mesa, mas sua ansiedade era tanta, que preferiu se restringir à bebida. Tentava desviar seus olhos da porta de entrada, mas eles teimavam em se fixar lá. Prestava atenção em todos que entravam, pois a pequena foto 3x4 de Francisco, não era suficiente para reconhecê-lo de imediato. Deveria prestar atenção sem mostrar tanta ansiedade.


Mais dez minutos se passaram. A ansiedade, antes tímida, começava a protagonizar seus atos. O vinho já não parecia tão saboroso. A orquídea perfumada no centro da mesa, já mostrava uma pequena pontinha murcha que antes parecia não existir. O perfume da senhora na mesa ao lado começava a incomodar, por ser doce demais. E a chuva... a chuva parecia gritar pelas janelas. Começou a pensar que talvez tivesse sido um grande erro marcar este encontro. De certa forma, sabia que não foram certos os métodos para descobrir quem e onde estava Francisco. Mas descansou sua mente, ao perceber que partiu dele também a felicidade em poder conhecê-la.

Sua filha gostaria de estar ali. Haviam pedido em uma das mesas a torta de limão que ela tanto gostava. A melhor torta de limão do mundo, diria ela. E naquele exato momento, como se fosse necessário que uma lágrima caísse para a chegada de Francisco, a porta se abriu. Um rapaz bem alto entrou, e logo a luz do grande lustre de cristal revelou seu rosto, fiel àquela pequena foto 3x4 que ele havia mandado. Não demorou muito para que ele a encontrasse. Bastou um simples olhar para que seu sorriso se abrisse. Fátima não sabia se andava em sua direção ou se permanecia sentada. Permaneceu então inerte, diante daquele cenário, por dezenas de vezes, imaginado.


Francisco parou diante de sua mesa deixando um embrulho sobre ela, e neste momento, Fátima se levantou. Não houve uma palavra sequer. Não houve um som. A chuva parou de gritar lá fora. As lágrimas se multiplicaram através dos dois pares de olhos. O sorriso dos dois já dizia tudo. E se abraçaram longamente, antes de finalmente se sentarem para iniciar a primeira de muitas conversas.


No pequeno embrulho, um presente. Uma corrente delicada, com um pingente de coração que se abria, revelando de um lado a pequena foto de Francisco... e do outro lado, um espaço para outra foto que certamente Fátima iria colocar... a foto de sua filha, cujo coração encontrava-se batendo no peito de Francisco.
Fátima sorriu diante do pingente e pediu ao garçom mais uma taça.
Andrea Pio


3 comentários:

ldiamante disse...

Olá Dra.
Vim retribuir sua visita.
Voce está de parabéns
Abraço
Leonardo

Juliana disse...

Passei só para falar oi, e ler uma crônica!! Beijo, Ju Bordon

Cris Torres disse...

Linda esta crônica Andrea!
Há sempre o lado positivo de tudo.
Talvez o transplante seja o lado positivo da morte.
Cris