29 de março de 2009

TAQUICARDIA SOCIAL


Se você está lendo este texto, parabéns. Se não está preso no trânsito ou na fila do supermercado, ou o que é pior, se não teve tempo de ir ao supermercado e acabou de chegar do trabalho exausto sem vontade de fazer qualquer coisa... parabéns por estar aqui, lendo este texto. Você é um vitorioso. Um vitorioso por conseguir parar.

Já parou para pensar que não paramos nunca? Certamente, isso é tão filosófico, que não teve tempo para pensar nestas coisas. Um simples pensamento que foge à linearidade desta vida de hoje em dia é considerado filosófico demais. Mas vamos lá, já que começou a ler, talvez não esteja tão exausto, ou tão prático hoje. Fujamos então, ao menos por um breve momento, deste ritmo que nem nossos relógios conseguem acompanhar. Fujamos de nós mesmos.

Sou médico há mais de vinte anos, e ultimamente, tenho pensado se todo este tempo não seria pouco demais. Não consigo me atualizar dentro de tanta correria. Dizem que há cada quatro anos todo o conhecimento médico é duplicado, sendo diariamente publicados mais de mil artigos. Só no PubMed há mais de 18 milhões de artigos publicados ... não consigo dimensionar o que seja toda esta quantidade de conhecimento. Pensando ainda que grande parte destes artigos torna-se obsoleta pelos que vão surgindo progressivamente, fico ainda mais confuso. Temo me atualizar com o obsoleto.

Sou da geração dos livros, dos papiros. Não havia internet durante minha formação universitária. Meus livros eram substituídos a cada quatro anos por edições novas, de tal forma que jamais me julgava atrasado. Sempre gostei de estar atualizado. Há algumas semanas atrás, fui reencontrar um colega de turma, e o mesmo afirmou não comprar mais livros de sua especialidade. Ao invés disso, assina site de revistas médicas de sua área. Argumentei que também assinava uma revista, porém continuava me baseando pelos livros. Ele então foi categórico: “Antônio, você certamente está desatualizado”. Por um momento (confesso) ter sentido vontade de agredi-lo verbal e fisicamente. Mas depois de alguns minutos, percebi que infelizmente, ele estava certo... e eu, desatualizado. Talvez seja por isso que ele não é somente cardiologista e sim, ritmologista. Talvez por isso estejamos caminhando para a ultra-especialização. Não é apenas um ortopedista que opera nosso joelho. É um ortopedista especializado em joelho que vem nos operar. Brevemente, será um ortopedista especializado em cirurgias do ligamento cruzado anterior. Engraçado ou triste isso? Seria engraçado de repente, se isso acontecesse somente com nossa profissão.

Tentei no último domingo ajudar minha filha no estudo de geografia, aproveitando meu dia de folga. Logicamente, pedi seu livro antes para estar preparado para possíveis questionamentos, os quais certamente já não conseguiria responder. Terminei então o referido capítulo e aguardei que ela chegasse do shopping com a mãe. Qual não foi minha surpresa, quando ela me disse: “Não pai, este livro é óbvio que já sei, mas a professora pediu para que a gente procurasse na internet o que está acontecendo agora no Paquistão”. Ou seja, ingenuidade minha ao querer me atualizar na geografia política atual enquanto minha filha estava no shopping. Ao menos ela me deixou atualizado sobre quanto havia gastado no meu cartão de crédito.

Além dos milhares de artigos médicos que surgem diariamente, e além da internet já presente no ensino médio, estão querendo atualizar até o nosso velho português. Não poderei ter idéias como antigamente porque elas perderam sua força com a ausência do acento. Se eu tiver enjôos pelo menos deverão ser mais suaves com a ausência do circunflexo. Agora é que não conseguiremos mesmo parar, porque pára perderá seu agudo. Lá se foram os tremas, permanecendo apenas – que contradição – àqueles das palavras estrangeiras. Não ficarei mais tranqüilo sem meu trema. Estão atualizando a língua que aprendi minha vida inteira!

Não sei mexer no meu aparelho celular quando dá defeito porque o manual é grande e não tenho tempo. Não sei sobre as minhas tarifas bancárias porque ao perguntar para a gerente, a mesma me dá um folheto com o endereço virtual para que eu me informe. Não sei sobre as bandas que meus filhos ouvem porque só escutam no MP3 após fazerem download, deixando nosso som subutilizado. Acho que em pleno ano de 2009 estou ficando igual ao atual presidente... as coisas acontecem e não sei de nada.

Estou em processo de transformação de conceitos. Tentarei a partir de agora deixar de ser tão conservador. Acho que não terei mais moral ao pedir para meus filhos saírem da internet e irem pegar o livro, se a própria escola orientou tal conduta. Não procurarei mais informações médicas nos meus livros e gastarei um pouco mais com os sites que me darão acesso aos artigos. Deixarei de ver o futebol no domingo para estudar o manual do meu aparelho celular, antes que o mesmo fique obsoleto demais. Vou acessar mais o conteúdo jornalístico dos sites para me atualizar no contexto político mundial. Comprarei um MP3. Talvez me especialize em alguma área nesta altura da minha vida, pois não estou suportando mais tanta informação nesta infinita clínica médica.

Fazendo tudo isso, preciso também arranjar mais tempo do que o tempo que tenho. Preciso me recriar dentro deste mundo que, sinceramente, não sei se é mais o meu. Um ser desatualizado dentro da rapidez das atualizações.

Ao menos, ainda consigo escrever... mas me recuso a retirar meus acentos, colocar certos hífens antes inexistentes e retirar os que já estavam lá. Isso me faria perder ainda mais a tranqüilidade ... ou melhor, a tranquilidade.
Andrea Pio

13 comentários:

Juliana Bordon disse...

Oi amiga li rapidinho, tô no plantão!! E como vç sabe o tempo é curto!!!! Beijo, Ju bordon.

Sabrina disse...

Oi Andrea,
Rí muito na hora do enjoo sem circunflexo.
Também continuo preferindo meus livros. E o tempo pra ler mais???
Beijo e saudades,
Sabrina

Emanuel disse...

VC tem toda razão. Estamos trocando nossa capacidade de análise pela de guardar informãção. O pior é quando a informação torna-se tão rapidamente obsoleta, mais rápida até do que a nossa capacidade de guardá-la...

Bianca disse...

Adorei,
Acho que eu sou esse homem, nao consigo mais nem colocar música no meu ipod, quanto mais, estar atualizada...
Bjos

Juliana Chaves disse...

Chefa, reflexão é essencial ao aprendizado, mas dá tempo de refletir? Ou somente há tempo de agir sem pensar e.... Temos que ter esse tempo de leitura e relexão. Obrigada por nos proporcionar isso com tuas palavras.. Beijos, Ju R1.

Ana Carolina disse...

Dra. Andreia
Sou aluna da UNCISAL e fui procurar uns blogs de medicina porque estou pensando em fazer um para a faculdade. Vi seu blog indicado no blog expressao arterial e vim ver. Acho que meus professores estao desatualizados porque nao dao artigo pra gente ler.
A materia da prova é sempre o livro ou o que é dado em sala.
Voltarei sempre.
Ana

salx disse...

Pois é Andrea, concordo contigo. Comecei a profissão há pouco tempo, mas já me sinto ultrapassado em certos aspectos. Eu não sei até que ponto é benéfico valorizar tanto o que é ultraespecializado e esquecer do ser humano como todo. Estive em Angola há pouco tempo e percebi o qto o mais simples, já faz diferença pra tanta gente. Parabéns pelo blog. Abraço.

Leonardo Diamante disse...

Olá Dra. Parabéns!
Você conseguiu exprimir com muita realidade algumas de nossas grandes dificuldades. Apenas não sei se as pessoas que não "vivem medicina" conseguem compreender.
Se você sente dificuldades porque está formada ha 20 anos, garanto que não vai piorar, pois eu já cheguei aos 40 e as dificuldades são as mesmas.
Abraço
Leonardo

Andrea Pio disse...

A todos que fizeram seus comentários, muito obrigada.
Ps: Leonardo, ainda não tenho os vinte anos de formada como o médico da minha crônica, mas sei exatamente como ele se sente perante tais dificuldades. Estou no período de transição...
Abraço a todos!
Andrea

Marli disse...

Olá Andrea!

Que alegria eu, professora, encontrar com você na rede, uma profissional da sáude escrevendo crônica. Confesso, doutora que esse é o meu mal! Que remédio pode curar esse mal crônico da falta de tempo? è tanta informação, tantas possibilidades que está muito difícil priorizar e organizar o tempo. Que drama! Abraço!

Andrea Pio disse...

Oi Marli,
Puxa, agradeço sua visita e sua leitura. Ví seus blogs relacionados à educação. De qualquer forma, independente da profissão, a falta de tempo bate na porta de todos nós!

Abraço.

Nicole Louise disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nicole Louise disse...

1) Pois é Andrea, é uma pena saber que profissionais da área da saúde sequer tomaram conhecimento sobre uma resolução tão importante que suspende remédios tão correntes nas farmácias e até em supermercados.

Quem sabe postando a mesma notícia ou repassando para os seus contatos você não ajuda essa informação a chegar às mãos de quem escrevem as receitas médicas? :)

2) É você quem escreve todos esses textos? São super bem escritos e repletos de fundamento. Gostei muito de poder lê-la no meu voluntário e planejado intervalo (rs).

Agora já sei que você é fã de crônicas. Gosta de poesia também?

Se quiser ler uns versinhos no seu intervalo :)www.heterocefalando.blogspot.com

Fique bem!
Nicole