22 de julho de 2009

DO PRIVILÉGIO À ESCOLHA



São Paulo, Julho de 1935. Era um dia frio, daqueles onde as folhas acordavam banhadas por uma fina lâmina de gelo, aguardando ansiosas pelo primeiro raio de sol. Estava em frente a uma bela casa amarela, sem muros, de janelas grandes, por onde se via a sala ampla e cheia de gente. “Quanta gente”, pensei na época. Percebi que as flores na varanda eram parecidas com as do meu vestido, e por um momento – contrariando o motivo de eu estar lá – fiquei feliz. Senti as mãos firmes de minha mãe me puxando para atravessar a estreita rua, e seu olhar recriminando meus passos lentos de sono. Tinha onze ou doze anos na época, de modo que meus passos ainda eram pequenos demais.


Adentramos na ampla sala e concluí rapidamente que a janela não era tão grande assim, pois havia muito mais pessoas do que se podia enxergar pelo lado de fora. Estava um pouco escuro, de tal forma que os semblantes pareciam uniformes, e as lágrimas só tornavam-se evidentes pela quantidade de lenços molhados nas mãos das senhoras. Procurei alguém da minha estatura, mas não encontrei ninguém. Pensei que talvez não devesse estar lá, mas era Domingo e minha mãe não tinha com quem me deixar. Continuamos atravessando a sala, diante de muitos lenços, sussurros, e mãos em minha cabeça, até que chegamos à cozinha. Minha mãe largou minha mão por um instante e foi ao encontro de uma senhora bem idosa. Abraçou-a gentilmente, diante de duas lágrimas intensas e um sorriso vazio. Lembro que observei aquela cena encantada com tanta ternura, e ao mesmo tempo, me perguntando quem seria aquela senhora. Lembro também que logo depois, fixei meu olhar numa tigela cheia de balas em cima da mesa, e as desejei intensamente.


Entretida com a visão das balas, quase não percebi que minha mãe já se encontrava ao meu lado, junto com aquela senhora. Disse então: “Julia, esta é Dona Margarete, uma querida professora que sua mãe teve quando era da sua idade, e que me acompanhou até a adolescência”. A senhora então estendeu sua delicada mão em minha direção e me cumprimentou sem muito entusiasmo, mas de forma doce e terna. Seus olhos estavam fundos e seu cabelo um pouco despenteado. Mas o vestido... o vestido tinha o tecido mais bonito que o meu. Era preto, com algumas flores brancas bordadas em renda, tanto nas mangas como na barra. Muito singelo e bonito o vestido, tanto que me lembro até hoje. Pensei que minha mãe também deveria ter me vestido de preto para a ocasião, mas... pensei depois que não tinha nenhuma veste desta cor. Crianças quase não vestem preto.


Para meu alívio, minha mãe me orientou a aguardá-la ali, enquanto iria ver o corpo sendo velado. Pensei então que o corpo deveria estar no meio da sala, pois quando chegamos fomos pelo canto dela. Certamente minha mãe quis me poupar da triste visão. Sentei na cadeira ao lado do pote de balas e, para minha surpresa, já não as desejei mais. Passaram alguns minutos – que para uma criança pareciam muito mais – e decidi ir até a sala. Foi assim que o vi. Um senhor bem velhinho, quase cem anos talvez, de pele muito branca, cabelos muito brancos e os olhos fechados como se embalado por um sono eterno. Não tinha face de tristeza. Não tinha face de dor. Não tinha face de solidão. Parecia ter morrido como qualquer pessoa desejaria morrer ao chegar a sua hora... em paz. Para confirmar este pensamento, antes de retornar sorrateiramente para a cozinha, ouvi Dona Margarete dizer: “Ele morreu em paz, com suas mãos nas minhas, e toda a família perto.” Voltei para a cozinha e comigo estava o seguinte pensamento: Por que todos choravam se ele parecia ter morrido feliz? Descobri então, aos onze anos, o que era a saudade.



Hoje é dia 22 de Julho de 2009. Não sei se este é um dia frio como aquele há 74 anos... está sempre frio neste hospital, e ainda mais nesta UTI. Não consegui chegar até a janela desde a internação, de tal forma que não consigo nem ver se os raios de sol surgem a cada manhã. Mas estava feliz ao lado de meus filhos e netos no quarto, esperando ansiosamente pela alta hospitalar. E agora estou aqui, sozinha, aguardando ansiosamente pela breve meia hora do horário da visita. Ao meu lado, um menino jovem, cheio de tubos por todos os lados. Tenho visto o enorme esforço da equipe médica em fazer com que melhore, e parece estar melhorando pelo que ouvi. Fico feliz que ele possa contar com toda esta tecnologia a seu favor. Engraçado pensar assim... acho que esta mesma tecnologia, no meu caso, não está ao meu favor. Não a desejo para mim.


O que estou fazendo aqui? Não me perguntaram se eu queria vir. Decidiram por mim e consenti, porque quem decidiu me amava mais do que tudo. Não suportava a idéia de eu partir, e quase sem querer, consenti. Tentaram esconder minha própria doença, como se eu não tivesse consciência sobre mim mesma. E já ouvi o médico falar que não há cura, apenas uma medida “paliativa” para prolongar minha vida. Mas a que custo? Isso não me causa felicidade. O único pensamento feliz que me vem agora é o de estar em casa ao lado da minha família.


É por isso que certamente este pensamento da minha infância me veio à cabeça. A primeira vez que me deparei com a morte, não a julguei tão assustadora. Fazia parte de um ciclo natural, que um dia chega ao fim. Por que contrariar isso? Da mesma forma que já desejei festas de aniversário, um belo casamento, ter filhos, fazer festas de aniversário para meus filhos e tantas outras para meus netos, por que não posso desejar morrer naturalmente? Muitos dos que amei já se foram, deixando saudades. É esta minha decisão. Não quero deixar, no fim da vida, o sentimento de tristeza no pensamento das pessoas. Quero deixar o sentimento da saudade. Não quero abrir mão de um minuto sequer com quem amo, e eles precisam entender que não serei eterna... o meu amor será eternizado pela saudade. Não quero perder mais um minuto sequer aqui. Alguém, cuja evolução natural não ocorreu como deveria, deve ocupar este leito. Não eu. Se sempre desejei viver em paz, assim também quero partir. Se viver em paz é um privilégio, morrer em paz é uma escolha.

-
Doutor, preciso falar com o senhor.
- Dona Julia, a senhora está sentindo alguma coisa?
- Estou sim doutor. Estou sentindo vontade de ir para casa, ficar ao lado da minha família. Não quero mais ficar aqui. Pode chamá-los antes da visita para me buscarem. Sei que está chegando a hora de eu morrer, e quero que isso ocorra em minha casa.
- Mas Dona Julia, sua cirurgia está marcada para amanhã cedo. Logo a senhora estará no quarto. Não pode pensar o pior.
- Sei como estarei no quarto, e não quero chegar ao fim assim. Sou muito agradecida a vocês por terem sanado minha dor, meu incômodo. Agora já posso ir para casa e prometo que tomarei o analgésico.
- Depois conversaremos melhor Dona Julia.


- Alô, aqui é o Dr. Roberto. Por favor, gostaria da avaliação da psicologia para uma paciente aqui na UTI. Vocês fazem avaliações aqui também? Ótimo. Trata-se de uma paciente de uns noventa anos, bem lúcida, que é portadora de câncer intestinal e será submetida à colectomia amanhã cedo. Foi admitida nesta manhã e acredito estar deprimida, querendo ir para casa. Vocês podem vir no horário da visita? Assim conversam também com a família dela. Introduzirei um antidepressivo na prescrição, mas demorará para fazer efeito. Não acho que esteja delirando. Continua lúcida, porém com o pensamento fixo de ir para casa. Conversarei com a família também. Obrigado então. Boa tarde e fico aguardando.


Andrea Pio

19 comentários:

Juliana Bordon disse...

Oi amiga, que saudades!!! Sinto falta dos nossos papos com alta demanda psicológica, como este seu último texto!!! Acho que a raiz deste dilema é porque não conversamos durante a vida com quem amamos sobre nossos conceitos de vida e morte, e sobre a sua transição com dignidade! Parabéns pela crônica,saudades.....

Emanuel disse...

Gostei muito da crônica, principalmente a mudança de referência no fim. Passou do referencial dela de como deveria terminar para o referencial de alguém de fora cujo o objetivo é de manter a vida, estimulado pela saudade ou pela profissão, não entendendo os motivos da vovó. A causa é falta de diálogo sobre vida e morte em vida, talvez por medo a morte. Evoluímos, mas continuamos com medo do que desconhecemos e costumamos deixar de canto, escondido. Beijão.

Sabrina disse...

Oi Dra.
Certamente já nos vimos diversas vezes nesta situação. Ter que nos posicionar entre a vida e o "deixar morrer". Vou concordar com os dois comentários anteriores: Os médicos se vêem nesta situação muitas vezes pela própria falta de conversa entre os familiares, e até mesmo durante o ciclo natural da vida.
Fiquei com um pouco de raiva deste médico porque a paciente nao parecia estar deprimida. Mas entendo o lado dele de se negar a deixá-la morrer.
Acho que não existe uma escolha certa ou errada não é?
Adorei a crônica.´
Beijo,
Sa

Nicole Louise disse...

Olá Andréa,

Cada vez que a leio me sinto mais próxima da minha certeza sobre o poder e a beleza da escrita no processo de humanização de todos nós, almas que muitas vezes preferem se bestificar, ao invés de malear, suavizar, cuidar, tratar, sanar, ajudar, colaborar, contribuir.

Sua crônica é belíssima do começo ao fim e sob todos os aspectos. A intenção, o assunto, o tema, a abordagem, o ponto de vista, a linguagem, a mensagem, a hipótese...o pensamento que não fica solto, mas que se volta completamente para aquela senhora que deseja tão verdadeiramente morrer em paz.

"Se viver em paz é um privilégio, morrer em paz é uma escolha." - adorei esse trecho.

Continuarei a lhe visitar, e por favor, continue nos humanizando.

Andrea Pio disse...

Ju, Emanuel e Sabrina.
Interessante vocês três terem pensado dentro de uma mesma - e fundamental - ótica. A falta de diálogo entre as pessoas em vida, faz com que muitas vezes o médico se veja numa situação onde a escolha pela vida ou pelo não mais continuar, passe necessariamente por ele. E isso é difícil demais.

Nicole,
Você sim é uma exímia escritora, e suas palavras me honram muito.
Obrigada mesmo e também continuo lendo seus textos em seu blog.

Abraço,
Andrea

José Carlos disse...

Andrea,
O que mais gostei neste seu texto foi ter mostrado a naturalidade em se ver a morte na infancia, e sua estigmatização conforme se envelhece. Esta senhora teve a capacidade de não se deixar influenciar pelo tempo.
Ótimo texto.

JC

Taciana disse...

Ato médico será votado em agosto

A proposta aguarda a inserção na pauta da próxima reunião da Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público (CTASP), que é preciso mobilizar e conversar com cada deputado para pedir apoio ao projeto.

Veja a matéria completa e a lista dos deputados no portal FENAM: http://portal.fenam2.org.br/portal/showData/386093

Taciana Giesel disse...

Congresso Mundial de Hospitais vai debater a saúde na era do conhecimento

“A Saúde na Era do Conhecimento” será o tema central do 36º Congresso Mundial de Hospitais, que será realizado nos dias 10 e 12 de novembro, no Rio de Janeiro.

O novo papel do médico no século 21 será um dos temas abordados.

Veja mais no portal da Federação Nacional dos Médicos (FENAM): http://portal.fenam2.org.br/portal/showData/386189

Andrea Pio disse...

José Carlos,
Certamente esta senhora não se deixou influenciar pelo tempo. Fiz questão inclusive de colocar em suas lembranças, ao lado da cena de um falecimento, a lembrança de um pote de balas, de um vestido... para mostrar o quao natural lhe parecera. Se a tivesse marcado negativamente, as balas e os detalhes da estampa de um vestido teriam desaparecido.
Obrigada pela visita!
Andrea

Luciane disse...

Andrea, gostei muito do texto principalmente porque estamos nos deparando com esse tipo de situação diversas vezes, tanto no trabalho como fora dele. Não é fácil aceitarmos ficar somente com lembranças, mas há situações em que ela, a morte, aparece como alívio tanto para quem fica como para quem vai. E é importante deixar claro que essa condição só é entendida por pessoas que conseguem amar de verdade, que tem compaixão.
Bonito texto! Adorei!
Beijos!

Andrea Pio disse...

Oi Lu,
Você está certa. Nesta semana mesmo nós duas, juntas, nos deparamos com esta situação.
Fico muito feliz em poder ter visto tantos pacientes ao seu lado este mês, justamente porque além do que os livros podem nos ensinar, conseguimos aprender com quem - sem saber - tem mais a nos ensinar: o paciente. Cada caso é um caso. Cada pessoa é uma pessoa. Somente as doenças é que se repetem.
Beijão e obrigada.
Andrea

Karina - Frei-Sein disse...

Linda Crônica...
Realmente a morte é a única certeza que temos nessa vida, é ela a angústia incessante do ser... E mesmo assim continuamos a nos privar de falar sobre ela...
Se soubessemos o quanto é importante deixar com que o paciente fale sobre esse momento, nós familiares e profissionais da saúde não diriamos frases prontas como essas: "Não fale nada, você precisa descansar nesse momento!" "Nem pense em falar sobre morrer, isso não irá acontecer com você!" E dessa forma silenciamos apenas aflições, tampamos o sol com a peneira... Em vez de chorar juntos e compartilhar sentimentos e até mesmo falar sobre as coisas práticas que a eminencia da morte nos obriga a fazer... Somos "falsos" nos últimos momentos perto daqueles que amamos... Quando percebemos paz e serenidade em um velório, não significa que aqueles que ali estão não amavam essa pessoa, significa sim que ali não há espaço para remorso, que houve diálogo sobre a morte ainda em vida, não ficando meias palavras perdidas por aí...
Parabéns Andrea, passarei a acompanhar seu blog e já vi que virarei fã de seus pensamentos...
Beijos

Andrea Pio disse...

Oi Karina,
Puxa, que bom que gostou do texto. Seja sempre muito bem vinda aqui. Adorei seu comentário.
Vou lá agora dar uma espiadinha em seu blog também.
Abração e obrigada.
Andrea

Taciana Giesel disse...

Prisão de médica: FENAM deve apresentar denúncia contra juiz até a próxima quarta-feira (05/08)

Veja no portal FENAM: http://portal.fenam2.org.br/portal/showData/386237

Blog do Óbvio disse...

Andrea, muito realista e singelo esse texto. Bem detalhado. Fiquei seu fã de "carteirinha" ao ler isso:
"além do que os livros podem nos ensinar, conseguimos aprender com quem - sem saber - tem mais a nos ensinar: o paciente. Cada caso é um caso. Cada pessoa é uma pessoa. Somente as doenças é que se repetem".
(Você escreveu para comentar o comentário da Luciene).
Muito bonito esse seu modo de ver o paciente como gente e não como algo que está alí "para ser arrumado" e enviado de volta ao mundo para carregar suas responsabilidades nas costas. Adorei você lá no meu bloguinho. Volte sempre. Já estou acompanhando e perseguindo o seu blog (caprricha, hein! - rsrsrs).
Um carinhoso e amigo beijo. Manoel.

Camila disse...

Oi Andrea,
Vi a propaganda do seu blog em outro blog e que bom que vim aqui.
Adorei sua crônica. Ja estive nos dois lados desta situação. No lado da médica e da familiar da paciente. Você escreve tao bem que meu arroz acabou queimando, não tinha objetivo de demorar muito e quando fui ver, li tres cronicas. ah, que pena que darwin nao pode mesmo ler aquela carta;

Beijo,
Camila

Andrea Pio disse...

Oi Manoel e Camila,
Fico feliz com a presença de vocês aqui. Obrigada mesmo!
Ps: Camila, acho que terei que escrever crônicas mais curtas... assim, não dará tempo para o seu arroz queimar. Ou então, uma sugestão, venha somente aqui quando estiver cozinhando feijao... demora mais.
Abraço,
Andrea

Clayton disse...

Déinha,

Esta crônica é exatamente com que me deparo no meu dia-a-dia de intensivista. Realmente, na maioria das vezes as decisões não são do maior interessado: o paciente. Serviu para eu refletir bastante!

One abrace!!

Andrea Pio disse...

Zézinho,
Imagino que se depare mesmo. Certamente é o intensivista que se vê nesta situação mais frequentemente.
Abraçone