28 de setembro de 2009

OS DOIS LADOS DO TEMPO


Num dia de setembro, Giovana observou atentamente sua casa, sentindo o cheiro de bolo de cenoura feito bem cedo. A luz natural vinda pelas grandes janelas iluminava as cápsulas de licopeno em cima da geladeira e o vinho tinto que se destacava no bar. A pequena luminária ao lado da cama direcionava-se para o livro “Combate ao envelhecimento” e para o creme anti-rugas, ambos esquecidos ali ao acordar. Escondidos no escuro, dentro da gaveta da escrivaninha, os exames pré-operatórios para a cirurgia plástica que aconteceria dentro de uma semana. No grande quarto, um pequeno espelho na parede branca, bem distante da luz, para onde ela então se dirigiu.

Como o tempo passou rápido... e como foi eficiente em depositar estas rugas no meu rosto. Consigo me lembrar das primeiras linhas de expressão no canto dos olhos, aos trinta anos, quando me preocupei ao vê-las ressaltadas pela maquiagem... mas sem me importar tanto assim. Nesta época sentia-me linda independente de qualquer coisa. Meu marido me achava linda. Meus pais me achavam linda. Meus filhos me chamavam de “a mãe mais linda do mundo”. Como dar importância então a algumas linhas de expressão? Quando os primeiros fios brancos de cabelo resolveram dominar minha cabeça, também não me incomodei tanto... fui ao salão e os pintei de preto. Ficou bonito na época, e resolvi repetir este procedimento até hoje... embora já não tenha tanto cabelo como antes. Mas não consigo lembrar exatamente de como foram se acentuando as linhas até se transformarem nestas rugas... não consigo lembrar em que momento meu rosto começou a mudar.

Lembro-me de cada alteração no rosto dos meus filhos. Lembro exatamente do dia em que começaram a andar e falar... e do dia em que percebi que já haviam crescido, não mais cabendo nos limites dos meus braços. Lembro do dia em que percebi os cabelos grisalhos do meu marido, as rugas mais acentuadas na testa e a pele não tão firme do pescoço... neste dia, achei-o ainda mais interessante do que antes. Sua beleza havia amadurecido. Lembro do envelhecer gradativo dos meus pais e hoje, não os acho tão envelhecidos assim, porque minhas rugas me aproximaram de sua aparência. E lembro-me de cada mudança durante o crescimento dos meus netos. De cada sorriso ou cada choro, emoldurado por rostos ainda infantis. Mas não me lembro dos momentos em que eu, exatamente, mudei. E hoje, vendo o meu rosto, sinto como se meu coração não tivesse acompanhado o tempo. Sinto que sou a mesma, mas minhas formas deixaram-se convencer pelo tempo. Meu coração não.

Há um ano reencontrei velhos amigos, os quais há muito não via. Percebi de imediato que o tempo fora mais generoso com uns do que com outros, embora impiedoso com todos. Num primeiro momento, ficamos nos reparando, nos comparando... até que depois de certo tempo, em meio às conversas sobre o passado, esquecemos da aparência e nos entretemos no que realmente éramos por dentro... os mesmos de anos atrás, com pequenas diferenças. Percebi que o Jorge continuava engraçado, que a Marina super ligada à profissão como sempre foi, que a Mônica havia realizado seu maior sonho de se casar na Turquia, que o Augusto mantinha-se temperamental e ciumento com a esposa... e que o Francisco não perdera sua mentalidade de “Don Juan”, tendo ficado ainda mais chato. Pensei comigo se a chatice não seria uma espécie de ruga no coração... ninguém a vê, mas também piora com o tempo. No meio da conversa, já animada com doce incentivo do vinho, chegou a Josi. No início ninguém a reconheceu, mas após parar ao lado de nossa mesa, foi o suficiente para sabermos quem era. Certamente o tempo foi menos impiedoso com ela... pouquíssimas rugas em seu rosto, mas... ao mesmo tempo, fora a que mais havia mudado. Seu rosto já não tinha a mesma expressão de antes. Já não parecia a mesma Josi. Certamente todos os homens da mesa comentaram que estava lindíssima e que era a mais conservada... comentário de mau gosto que verdadeiramente me tocou. Quer dizer então, que eu não estava conservada? Pensei nas cebolas há tanto tempo no armário da cozinha... cebolas em conserva.

Quer dizer que é melhor estar conservada, mesmo tendo mudado o rosto pelo efeito de uma cirurgia plástica? Pela atitude das pessoas, percebi que era. Melhor parecer jovem, mesmo de uma forma artificial.

Depois desta data comecei a investir nos cremes anti-rugas. Passo religiosamente duas vezes ao dia, após tonificar a pele. Também comprei um aparelho para ginástica facial, e outro de massagem para o pescoço. Melhorei muito, mas... as rugas insistiram em ficar. Tornei-me obsessiva com isso e hoje estou aqui, rendida pela decisão de também fazer cirurgia plástica. Meu marido e meus filhos não querem, mas tenho certeza de que me acharão mais conservada... vou tentar anular grande parte do tempo que me marcou. Marcou minha pele.

Olhando assim no espelho, confesso que não me acho tão diferente de quando era jovem... estou mais envelhecida, mas me reconheço muito bem... embora não aprove estas rugas que resolveram aparecer como pequenos alienígenas. Mas... sinto-me eu mesma. Estou começando a ficar com medo de mudar demais e não me reconhecer. De mudar meus traços, que herdei de meus pais e passei para meus filhos. De olhar depois neste mesmo espelho e pensar “estou mais nova, e mais diferente do que eu era”. Não sei se quero realmente isso. Temo que meus filhos me olhem e percam um pouco de sua própria identidade... afinal, foi o meu o primeiro rosto que viram na vida, e o que continuam vendo sempre, mesmo com as rugas que se somam cada vez mais... eles se identificam com minha imagem, da mesma forma que eu me identifico com a imagem dos meus pais. A plástica não mudará isto? Como ter certeza? Preciso pensar mais.

Giovana deixou sozinho o espelho, pegou sua bolsa e saiu apressada.

- A sra. quer mesmo cancelar a cirurgia? Está receosa porque a data está próxima, certamente. Mas pense que valerá a pena, e que ficará mais bonita mais jovem. Pense um pouco mais. Em algumas horas recuperará muitos anos!

- Doutor, agradeço muito ao senhor e peço desculpas por tanto incômodo, mas mudei de idéia sim. Já não me sinto tão mal. Continuarei usando meus cremes, me matricularei na academia hoje, e continuarei pintando meu cabelo... talvez de outra cor... estou pensando também em fazer peeling facial, mas plástica sei que não quero mais. Não quero me identificar com as cebolas que estão no meu armário. Não quero parar ao lado da mesa com velhos amigos, e ver que eles não me reconheceram mais... e não pelas rugas, mas por traços que nunca me pertenceram. Prefiro não ser reconhecida pelas minhas rugas, que já são minhas mesmo e que as pessoas mais próximas de mim as viram nascer. Sinto-me a mesma doutor. Meu coração ainda está sem rugas. Não quero envelhecê-lo agora com escolhas que não seriam as minhas.

Ao retornar, Giovana observou novamente sua casa, não mais sentindo o cheiro de bolo de cenoura, mas das margaridas que estavam na sala. Olhou para as fotos de seus filhos na infância, de seus netos, de seu marido já com cabelos grisalhos ao seu lado. Reparou que a garrafa de vinho já estava na metade e precisava comprar mais. Foi até o quarto, olhou para o espelho e pensou: Mudarei o espelho. Este é pequeno demais.

Quase sem perceber, viu um pequeno bilhete preso no espelho, o qual ainda não havia notado. Aproximou-se e leu o que estava escrito, com uma letra já bem conhecida: “Mãe, você sempre foi, é e sempre será a mãe mais linda do mundo”.
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Andrea Pio

12 comentários:

Mauro Sueyro disse...

Andrea,
Talvez o cérebro humano envelheça mais tarde que o corpo e por isso, o que vemos diante do espelho não represente o conceito que temos sobre nós mesmos.
Mas somos nós.
Parabéns pelo texto.
Mauro

Asdrubal Cesar Russo disse...

Andrea,

Fico de boca aberta com seus textos! É de uma clareza de pensamento e de uma sensibilidade que nos emociona.
Abçs
Cesar

Camila disse...

Andrea !!!!!!!
Muito legal a Sra. Giovana mudar de opinião sobre algo tão sério, possivelmente influenciada por uma colega que ela nem ao menos sabe estar feliz. Já estou passando dos quarenta e ainda não tenho opinião formada sobre isso. De qualquer forma, quando for o dia de tomar uma decisão destas farei por mim mesma!
Ótimo texto! Faço das palavras do Asdrubal as minhas!!
Abraço,
Camila

Andrea Pio disse...

Mauro,
CERTAMENTE o cérebro humano envelhece mais tarde do que o corpo como você disse, embora haja algumas exceções... por isso resolvi colocar a "chatice" como rugas no coração. Tem gente que, apesar de ser novo, já não tem vontade de rever conceitos, de evoluir, de levar as coisas na esportiva.

Asdrubal,
Fico honrada pelo seu comentário, principalmente após ir visitar seus blogs. São muito bons. O de fotografias então é excelente! Muito bom quando temos a capacidade de sensibilizar as pessoas, seja através da escrita, da música, da fotografia, etc.

Camila!
Você captou exatamente o que quis dizer no texto. A questão maior nao é fazer ou deixar de fazer cirurgia plástica, mas sim no PODER DE DECISÃO. Decidirmos sobre nós mesmos, sem influências de toda a "industria da beleza" que nos provoca desejos utópicos e distúrbios da auto-imagem.
Se fazer cirurgia plástica deixa uma pessoa feliz, depois de pensar sobre isso, vá em frente! O importante é ser feliz!

Obrigada a todos.
Abraço,
Andrea

Natália Ferreira disse...

nossa esse texto você mesmo quem escreveu? lindo cara! beju nati ferreira

Andrea Pio disse...

Obrigada Natália!
Abraço,
Andrea

José Carlos disse...

Andrea,
Estou indo lá comprar um espelho maior para mim também. Já estou me sentindo melhor com minhas rugas que estão surgindo!
Não preciso nem falar que o texto é excelente, porque seria óbvio.
Abraço
JC

Andrea Pio disse...

José Carlos,
Isso mesmo, compre um espelho bem grande! A vida é boa demais e as rugas são fruto dela.
Obrigada.
Andrea

Juliana Migliorati disse...

Andrea tá lindo demaisssss...
Amei muitos msm parabéns e o final foi maravilhoso amei o bilhete!
Não sei pq mais suas atualizações não aparecem p/ mim! Muitos beijinhos
Ju

Andrea Pio disse...

Oi Juliana,
Obrigada!
Que bom que gostou do texto... e do bilhete no final. Realmente não havia outro lugar melhor para o filho dela deixar o bilhete, não é mesmo?
Abraço!!
Andrea

Roberta Garcia disse...

Oi Andrea,

Lindo texto!
Lindas suas palavras.
Coloquei um link no meu blog para que meu leitores possam acessar o seu.
Seu texto é perfeito para a postagem que fiz recentemente.
Dê uma passadinha por lá!
fonoaudiosaude.blogspot.com

Abraços com carinho!
Roberta Garcia

Manoel Pio de Abreu Filho disse...

Querida Andréa,

Você sabe que sempre gostei do que escreve: crônicas, poesias, ditados e pensamentos. As palavras fluem com naturalidade, leveza, suavidade, criatividade e, principalmente, genialidade.Tenho orgulho da filha que tenho. Não é por acaso que suas crônicas são lidas por mais de 20.000 pessoas, como da China, India, Canadá e Brasil.Continue alegrando as pessoas que têm sensibilidade.
Te amo, seu pai Basqualino.

Ps: Embora surgissem-me algumas rugas adquiridas com o passar do tempo, vc acha que não envelhecí, considerando a idade que tenho.