31 de janeiro de 2010

FECHAM-SE AS GRANDES CORTINAS

São cinco horas da tarde, e hoje é o meu último dia como médica residente. Após quatro anos nesta condição, fecham-se as cortinas bem rapidamente... e saio deste cenário, no qual até então eu residia.

Não há termo mais perfeito do que este: “Médico residente”. Após seis anos de formação acadêmica, encontramos no hospital nossa próxima residência. É onde acordamos por várias vezes, é para onde nos dirigimos todos os dias, é onde nos procuram como se fizéssemos parte daquela estrutura. Confundimos-nos com o próprio dia a dia. Envolvemos-nos tão completamente, que o limite nítido entre vida pessoal e profissional deixa de existir, desde o primeiro dia. Se tal limite deixa de existir, é lógico que também os limites dentro de nós – enquanto pessoas e residentes – também desabam, muitas vezes fundindo-se em um só. Ao nos olharmos no espelho, enxergamos também nossa função.

O envolvimento passa a ser total, em período integral.

E de repente... chegamos ao final. Os pacientes que antes assumíamos como nossos, deixam de ser. O hospital que assumíamos como nosso, deixa de ser. As funções que assumíamos como nossas, deixam de existir. As relações que tínhamos com outros residentes e chefes... transformam-se em apenas um dia: Nos relacionaremos agora com as pessoas, sem mais com a função que elas exercem. De uma hora para outra, temos que nos despir da imagem de médico residente. Saímos deste cenário, deixando esta “roupa” para o próximo que irá nos substituir.

E então, às cinco horas da tarde do último dia de residência, e faltando apenas meia hora para terminar me pergunto: O que será agora? Como é ser uma médica sem ser residente? Não sei.

No dia da minha formatura, imaginei ser aquele o momento que marcava meu primeiro passo como “profissional independente”. Hoje vejo o quanto me enganei. Mesmo assumindo trabalhos fora da residência neste período, nos quais não era médica residente... de certa forma, eu era “médica residente trabalhando em outro local”. Esta é uma condição que se insere em nossa vida 100% do tempo. Não estamos médicos residentes. Nós somos médicos residentes.

Vejo que o passo para a independência profissional verdadeira ocorrerá em meia hora. Meus passos não serão mais amparados por quem me orienta. E não poderei caminhar mais ao lado de tantas pessoas, na mesma condição que eu.

Há quem julgue que a residência médica ou especialização, nada mais são do que uma forma de mão de obra barata, na qual temos que nos submeter em troca do conhecimento e do título. Realmente, particularmente em nosso país, a mão de obra é barata, mas isso não significa que deveríamos deixar de passar por isso. Não saímos da faculdade devidamente preparados para cuidar da vida de alguém. Saímos imaturos profissionalmente, independente de sermos mais ou menos maduros enquanto pessoas. Independente das diferentes visões, concordantes ou discordantes, referentes a todo este tempo ao qual nos dedicamos à residência, um fato é real: Este período é intenso demais para nós. É uma montanha russa de emoções.

Faltam poucos minutos para o término da montanha russa, e como já estou aqui em baixo, não consigo enxergar o que me reserva lá na frente... nesta planície que a partir de agora, terei que prosseguir. Meus pacientes – que realmente assumi como meus – não mais me procurarão. Meus colegas de residência, com os quais estabeleci estreita relação, seguirão também seu caminho. Meus chefes e mestres que me orientaram, me ajudando a traçar condutas... permanecerão orientando outros residentes.

A cortina se fecha para este cenário que permanecerá sem mim. Vejo então, que é chegada a hora de partir... e mudo para um cenário bem maior, que é a vida lá fora. Mas antes de a cortina se fechar completamente e as luzes se apagarem... deixo aqui um pedaço do meu coração.

A luz já está se apagando... e o resto da vida está me esperando, com as luzes bem acesas lá fora. Já estou indo...

13 comentários:

Bianca disse...

Andrea,
Imaginei que vc deveria estar preparando algo especial pra esse mes.... e desta vez posso sentir o mesmo que vc!!!
Estou receosa, mas otimista.Deixamos o hospital, mas nao os AMIGOS!!!!!!!!
Até mais tarde e muitos beijos.

Georgia disse...

Oi Andrea...vc acaba comigo...estou mal...muito mal...uma tristeza tão profunda, que agora, sem meus afazeres de mãe (a Sofia está dormindo), o que me resta é chorar!!!É o que estou fazendo agora, após ler seu texto de despedida!Parabéns!
Vcs não imaginam como foi hoje lá no hospital...nem precisaria dizer o quão triste foi...comentamos eu e Jú...triste, muito triste.
Obrigada por terem vindo em casa na sexta-feira...espero vcs mais vezes...estarei aqui!
Bjos

Andrea Pio disse...

Bi,
Certamente não deixaremos os amigos. Construímos laços fortes nestes dois anos, o que é raro hoje em dia. Vamos continuar agora, mesmo que receosos num primeiro momento, mas certamente felizes por estarmos fazendo o que gostamos. Com certeza os amigos irão continuar, e você se inclui nos meus, viu? Te adoro.

Georgia,
O que dizer de você? Certamente uma das pessoas mais fortes que já conhecí. Parece que sua força nem cabe dentro de você, já que é pequenina. Ficarmos tristes pela despedida e é normal... problemático seria se não sentíssemos falta uns dos outros. Daqui a pouco sua jornada aí também terminará e seguirá seu caminho com seu marido e nossa Sofia. E certamente será uma exímia nefrologista, tamanha sua responsabilidade. Tenho muito orgulho de ter sido sua R2, viu? Certamente não iremos perder esta amizade que construímos. Te adoro.

Juliana Bordon disse...

Amiga estamos passando por uma fase de alta demanda psicológica, como dizia você!!!Hãhã!!Certamente foram dois anos muito intensos, não sei se para todos , mas para mim com certeza!!! Chegamos cheios de insegurança, medo, preconceitos e ansiedade, mas parte desses sentimentos foi substituído por algo maior chamado amizade. Estou triste por não estar convivendo diariamente com vcs, mas feliz pois sei que hoje sou maior, digo não como médica, mas como pessoa, pelo o que aprendi e mudei nestes dois anos, mas principalmente pelas amizades que fiz!!!! Até logo!!!
Beijo a todos,Juliana Bordon.

Andrea Pio disse...

Oi Ju,
Talvez isso seja o mais importante... sabermos que, mesmo no ambiente profissional, cujo maior objetivo é o trabalho... também podemos evoluir enquanto pessoas.
As dificuldades nos fazem evoluir.
Beijo grande. Até logo!!!

seraumann disse...

andrea, fico imaginando como vai evoluir sua nervose sistêmica disseminada grave (ou estágio IV)...


e fica a pergunta, como vc vai viver sem mim pra te aporrinhar?????

Andrea Pio disse...

Olha serau, esta realmente é uma pergunta difícil hein? Certamente minha vida ficará um pouco mais normal!!! E vc imagino que já esteja com síndrome de abstinência das minhas vãs filosofias.
Mas, independente do término da residência (e dos nervos do dia a dia, intrínsecos à vida de um residente), continuaremos amigos certamente.
Valeu nervo!

Juliana disse...

Nossa, me arrepiei inteira...
Nem precisa dizer que as lácrimas escorrem...
Muitas saudades.

Andrea Pio disse...

Oi Ju,
Também estou com muitas saudades, viu?
Beijo!!!

Camila disse...

Oi Andrea, fazia tempo que não aparecia por aqui não é?
Você está corretíssima ao dizer que o médico residente deveria ser mais valorizado no Brasil. Há muita mão de obra barata médica durante dois a quatro anos que hospitais, governo, e clínicas se beneficiam. E não sei se em troca o conhecimento é tanto assim. Ao mesmo tempo é verdade que não saimos preparados da faculdade e precisamos nos especializar.
Sentí também o término da residência, mas confesso que a sensação foi mais de alivio que de tristeza. De qualquer forma, me emocionei com o final da sua crônica.
As grandes cortinas já se fecharam faz alguns anos em minha vida e sinto que a luz aqui fora (na vida) às vezes é quente demais!

Abraço e parabéns.
Camila

Andrea Pio disse...

Oi Camila,
Alívio também é uma sensação certamente presente, em maior ou menor grau, com certeza.
O mais importante, talvez, ao terminarmos uma fase de nossa vida, é pensarmos: "Valeu muito a pena". Acho que valeu.
Obrigada pelo comentário!

Nicole Louise disse...

Querida Andrea,

Não tenhas medo. As cortinas se fecham por um motivo muito claro: por melhor que seja a peça, o filme ou o espetáculo, sempre chega a hora de voltar para a casa, e a sua casa, ao que me parece: é a medicina.

"Se tal limite deixa de existir, é lógico que também os limites dentro de nós – enquanto pessoas e residents – também desabam, muitas vezes fundindo-se em um só. Ao nos olharmos no espelho, exergamos também nossa função."

Reflexões como essa, escritas, ou melhor, confidenciadas, desta forma, só sairiam do coração de alguém que nasceu ou decidiu verdadeiramente ser médico.

Não tenho dúvidas de que serás muito bem sucedida. E não falo de um lindo consultório, ou de uma enorme clínica cheia de empregados, mas sim de uma fila de pacientes esperando, ansiosos, por serem tratados por você.

Se a família de residentes parece se desmontar ou se afastar, tenha a certeza de que uma outra família de pessoas esperançosas que rezam para encontrarem por bons médicos está a te esperar.

Boa sorte!

Andrea Pio disse...

Puxa Nicole, muito obrigada pelo comentário, como sempre tão gentil. Ainda mais vindo de você, que é tão boa escritora. Quando vou lá ver seus blogs até tenho vergonha de continuar escrevendo!
Forte abraço e... até abril!
Andrea