10 de abril de 2010

ALGUNS SONHOS SE REALIZAM


Em determinados momentos da vida, parece que paramos por um momento e fazemos uma “formatação cerebral”. Conseguimos sair do presente, para visualizar tudo o que vivemos, retirando os momentos mais marcantes – positivos e negativos – que contribuíram para a nossa formação enquanto indivíduos. É como se o passado batesse fortemente em nossa porta e gritasse: “Pare por um instante nesta sua vida agitada e me deixe entrar. Veja só pelo que você passou para se transformar no que é agora”.


Mas, geralmente quando um destes momentos de “formatação” ocorre, é porque passamos ou iremos passar por mais um momento muito significativo em nossa vida.


E, a partir daqui, digo que há dois dias, mais precisamente no dia 06 de abril de 2010, vivi um dos momentos mais marcantes e mais esperados em minha vida: Minha primeira atuação como médica nefrologista ao lado de outro nefrologista, o qual foi minha maior inspiração para me aprofundar nesta tão fascinante e apaixonante área da medicina: Meu pai.


Ainda recordo como se fosse ontem da minha infância, das vezes em que meu pai saia cedinho de casa para ver seus pacientes, tão cedo que ainda não era hora de eu estar acordada. Lembro-me na verdade, do pensamento que eu tinha ao acordar: “Papai já saiu para trabalhar”. E me lembro de suas chegadas, e da minha felicidade ao ver que – mesmo com todo o seu cansaço – ainda tinha tempo para nós.


Até que cresci o suficiente para acompanhá-lo diversas vezes no consultório, onde ficava escrevendo e desenhando em folhas amarelas, rascunhos trazidos do antigo Hospital São José. Neste período, dentro de minha privilegiada e inocente ótica de criança, reparava, em meio às minhas escritas e desenhos pouco artísticos, em alguns pacientes que aguardavam o atendimento do meu pai. O que mais me recordo é de como os achava pálidos, como se fizessem parte de um desenho mal pintado dos gibis. Hoje, tenho noção de que esta palidez possivelmente devia-se à ausência da eritropoetina recombinante, hormônio que viria surgir anos mais tarde para tratar a anemia do paciente renal crônico.


Lembro fielmente também de quando assistia aulas de Equilíbrio ácido-básico ministradas pelo meu pai na Escola de Medicina da Santa Casa de Vitória. Achava estranho ver meu pai como professor, e ao mesmo tempo, sentia um orgulho muito maior do que minha estatura ao ver tanta competência, e principalmente, o quanto era capaz de entreter uma turma sem o menor esforço, com um assunto tão complexo. Os alunos não desgrudavam um minuto sequer os olhos do meu pai. Não é a toa, que muitos deles se tornariam mais tarde nefrologistas. Meu pai despertou o interesse pela nefrologia não só em mim, mas também em muitos de seus alunos.


Durante a faculdade passei muitas noites, madrugadas a fio, discutindo matérias com meu pai. Até que nos dois últimos anos da faculdade, estas discussões tiveram que abrir espaço para minhas inúmeras noites de plantão no Hospital. E comecei a entender o quão significante é ter alguém esperando por nós no hospital.


Veio a Residência de Clínica Médica, e finalmente, a tão sonhada especialização em Nefrologia... e com ela, muitas contas de telefone bem onerosas, tamanhas as nossas discussões sobre casos clínicos interessantes vividos dos dois lados. E então, percebi que já era possível separar (não totalmente) o pai do colega de profissão.


E retornando ao motivo deste texto, me vi finalmente ao lado do meu pai, atuando como nefrologista. Ao meu lado, aquele que me carregou no colo para sanar meu choro e embalar meu sono, aquele que saia cedinho de casa e eu nem conseguia vê-lo, para fazer exatamente o que hoje estou fazendo ao seu lado: cuidando dos pacientes. Ao meu lado, aquele que foi um dos maiores professores que já vi, pela imensa paixão dos seus alunos por ele. Não era necessário conhecimento médico de minha parte para já perceber isso na adolescência.


Acho que todo médico filho de médico(a) passa a vida sendo questionado com a seguinte pergunta: “Você fez medicina por causa do seu pai (ou mãe)?” Confesso, que até o meio da minha faculdade esta pergunta me afetava de certa forma. Sentia que minha vocação – no dia a dia evidenciada – estava sendo questionada. Até que, com o tempo, percebi que este questionamento era certamente natural. E quem não é filho, ou parente de algum médico e resolve fazer medicina? Provavelmente se inspiraram numa figura do cinema, da televisão, daquele médico que o atendia quando criança, na imagem daquele homem vestido de branco que se dedica a cuidar de pessoas doentes... certamente estes também foram influenciados, mas por pessoas que não retornam todos os dias cansados para sua casa e que provavelmente, não deixam claro o lado difícil desta profissão. No final das contas, a vocação da medicina nasce em todos aqueles que possuem um fator em comum: O desejo de cuidar das pessoas enfermas. Certamente, este desejo não depende de parentescos.


Hoje estou cuidando de pessoas enfermas ao lado de quem me mostrou o quanto isso significa. Sinto-me feliz pela realização deste grande sonho e por isso escrevo aqui, para dividir isto com vocês. Por outro lado, vejo o quanto ainda preciso caminhar... a experiência é a principal ferramenta do estado da arte na medicina. O olhar médico é lapidado pelo tempo.


Hoje, caminho ao lado não só do melhor pai do mundo, mas também do maior nefrologista do mundo para mim. Um nefrologista que continua acordando cedinho desde 1961 para ver seus pacientes com uma atenção inesgotável. Um nefrologista que presenciou os maiores avanços da história da nefrologia. A diferença é que agora não acordo pensando que ele já saiu... acordo e saio ao lado dele.


Andrea Pio

14 comentários:

Viviane Ganem Kipper disse...

Deda,
Posso dizer que a nefrologia na minha vida teve uma ligação direta e indireta com seu pai. O amor e a dedicação dele me encantaram, me encantam e me inspiram. E vc dá continuidade com a grandiosidade dos seus atos e a intensidade com que se dedica como médica, amiga e companheira.
Aproveitando, mande bjos para seu pai da fã Vivi

Andrea Pio disse...

Oi vivi,
Pode deixar que mando sim. Meu pai te adora também.
Você é minha irmãzinha do coração.
Beijo grande. Saudades!!!!!!!

Mara disse...

olá... li seu relato neste post e achei muito bonito, eu que por problemas na coluna e muitas consequencias tenho andado muito em médicos nos últimos anos, te comparei com o médico ortopedista que me operou da cervical e com quem trato há anos, ele tambémse inspirou no pai que é ortopedista só que se especializou em coluna, e você me passa o mesmo que vi nele, um amor pela medicina. Parabéns, pelo menos temos pessoas como você que aliviam nosso sofrimento. Também fiz um blog recente sobre meu problema e suas consequências e está valendo como terpia. abraços. Mara: www.colunalegal.com.br

Andrea Pio disse...

Olá Mara,
Puxa, obrigada.
Antes de responder ao seu comentário fui dar uma espiada em seu blog, que por sinal achei muito bom. Parabéns!
Vejo que este seu médico ortopedista foi e continua sendo importante para você, e tenho certeza que você também é uma importante paciente para ele.
Você disse: " pelo menos temos pessoas como você que aliviam nosso sofrimento".
Então, te digo que por pacientes como você vale muito a pena ser médico. Vocês também aliviam muitos dos nossos momentos difíceis. No final das contas, independente de sermos médicos ou pacientes, estamos juntos para vencer a mesma batalha. Te desejo melhoras progressivas!
Abraço.

Mauro Sueyro disse...

Andrea,
Texto muito bonito, uma verdadeira declaração de amor ao seu pai.
No meu caso isto não aconteceu porque meu pai hoje aposentado, é piloto de avião. E torno público aqui um grande segredo: Morro de medo de voar! Desde pequeno, nunca gostei das alturas! Não era minha vocação.
Resolvi então cuidar das pessoas em terra firme.
Acho que minha maior inspiração foi em um médico muito amigo da família.
Cumprimentos,
Mauro

Andrea Pio disse...

Mauro,
Realmente acredito em vocação. E você descobriu a sua.
Desejo então que não precise viajar tão cedo, e continue cuidando dos seus pacientes em terra firme.
Obrigada
Andrea

Juliana Bordon disse...

Oi amiga!!!! Antes de qualquer comentário: que saudades!!!!Linda sua última crônica!!!! Chorei!!! (gravidez não é facil, choramos por tudo hãhãhã). É uma verdadeira declaração de amor ao seu pai!! Quem sabe um dia teremos pelo menos 1/3 do conhecimento nefrológio do Dr Pio.Grande abraço, Ju Bordon.

Andrea Pio disse...

Oi ju. Saudades também, da nossa rotina, dos papos, e até dos estresses também...
Que bom que gostou do texto deste mês... realmente mais uma declaração de amor do que uma crônica... rs.
Espero que esteja tudo bem e muito feliz com o neném!

Bjo

Nicole Rodrigues disse...

Quanta generosidade sua compartilhar tamanha intimidade emocional conosco. O seu pai dele ter muito orgulho de você, um orgulho que, como você deixou bem claro: é recíproco, já que você o idolatra.

Que bom seria se todos os pais pudessem ser bem-quistos assim por seus filhos.

Boa sorte sempre Dr. Andrea, para você e para o seu pai.

Sinceramente,

Nicole

Andrea Pio disse...

Prezada Nicole,
Seus comentários generosos já fazem parte da estrutura do meu blog. Fico muito feliz SEMPRE com o que escreve.
A propósito, fui dar uma olhada com calma no seu outro blog "Submersos".... que maravilha! Tem textos maravilhosos, tem Van Gogh (uma das minhas pinturas preferidas), tem até Chet Baker!!!! Deixei um comentário lá postado também, num texto escrito por "Vinícius".
Fico muito honrada com seu comentário, principalmente vindo de uma exímia escritora, viu?

Abraço,
Andrea

Nicole Rodrigues disse...

Muito me alegra saber que a minha presença é bem vinda e querida aqui nesse espaço tão bem cuidado e guiado por você.

A sua visita ao Submersos também me alegrou. Aquele é um espaço muito especial que (originalmente e de direito) pertence ao Rodrigo Vinícius que escreve o Folhas Avulsas.

O Vinícius me encontrou no Heterocefalando e muito gentilmente me convidou a colaborar com alguns textos em um segundo blog dele, que acabou se tornando nosso e agora estamos ambos submersos.

E por falar em blog novo...

Aqui está o meu filho mais novo:

www.uterovazio.blogspot.com

É um blog bem feminino e espero que você goste do tema e do objetivo dele.

xxx

Nicole

Andrea Pio disse...

OK Nicole! Já estou indo dar uma conferida no seu blog novo!
Bjo

Cris disse...

Oi Dra. Andrea...
adorei...sempre quando leio essa crônica, choro...choro...choro de felicidade...
Parabéns...obrigado por tudo...não sabe como suas palavras são importantes pra mim.
Beijos. Cristiane

Andrea Pio disse...

Oi Cris,
Fico feliz com seu comentário viu?

Bjo e muito obrigada pela visita!