8 de junho de 2010

A PRIMEIRA CRÔNICA A GENTE NUNCA ESQUECE

Aos 14 anos escrevi minha primeira crônica. Estava na varanda do meu apartamento, quando visualizei uma senhora bem idosa, com um coque muito bem feito prendendo seus cabelos branquinhos, andando na calçada bem lentamente com seu animal de estimação. Levava o animal não pela coleira, mas por uma espécie de barbante vermelho tão fino, que balançava diante do soprar do vento. Todos olhavam. Não havia alguém que passasse impunemente sem pousar os olhos na velhinha, e em seu animal. Alguns franziam a testa, outros erguiam a sobrancelha, mas a maior parte – simplesmente – sorria.

Que animal era esse tão leve ao ponto de ser puxado por uma velhinha por um fino barbante e tão interessante ao ponto de se transformar no protagonista da rua, em pleno Rio de Janeiro?
Uma galinha. Mas veja bem... não se tratava de qualquer galinha... esta era elegante, andava com o bico empinado, rebolando suas penas para lá e para cá, sem fazer a menor confusão. Não tinha aquele comportamento ansioso “galinhesco”, de ficar tentando traçar vôos ineficazes... não tinha aquele ar revoltado de estar sempre na iminência de ir para o forno, sabe? Aquela era uma galinha diferente, algo aristocrática, metida a cadela de raça, daquelas bem raras que comem carne de primeira. Tinha todo um jeito "mamífero" de ser.

Certamente uma cena muito interessante de se ver. Mas o que me marcou mesmo foi exatamente o comportamento das pessoas diante daquela cena nada “habitual”. Lembrei de um programa que havia visto há poucos dias, sobre a Índia. Lá, os elefantes andavam nas ruas naturalmente, e ninguém se impressionava. Tinha achado isto muito interessante. E foi assim, que pela primeira vez, tive noção de que o “normal” é relativo. O “normal” é adotado em cada contexto, como fruto de costumes anteriormente estabelecidos. Escrevi então minha primeira crônica, intitulada: “O conceito de ser normal”. Foi o marco de minha transição na escrita... e desde então, nunca mais escrevi poesias.

Já se passaram anos e anos, e aqui estou eu pensando mais uma vez nisto. Não vi nenhuma cena diferente, nenhum camelo andando pelas ruas de São Paulo ou talvez um crocodilo tomando sol nas praias do Espírito Santo... não vi nenhum fato marcante, principalmente porque nesta última década, está cada vez mais difícil achar algo que não seja “normal”... principalmente no que tange o comportamento humano.

E é exatamente pelo motivo contrário daquele que me inspirou na primeira crônica, que escrevo. Será que não estamos achando tudo normal demais? Será que não deveríamos estar ainda nos impressionando, com ao menos algumas coisas?

Quais seriam os motivos que (ainda) são capazes de nos impressionar?

Tentando responder a esta difícil pergunta, parti para uma íntima trajetória, mergulhando na releitura dos últimos acontecimentos que, de certa forma, me marcaram.

Inicio com uma matéria publicada em abril de 2010, na qual o presidente da República afirmava serem os médicos os responsáveis pela deficiência na assistência médica nos interiores do país. Afirmou ainda que “é muito fácil ser médico na Avenida Paulista”. Pois é... esta notícia realmente me marcou (pela raiva), porém dizer que me impressionou... ah, isso já seria um exagero. Não me impressiona saber que o presidente do Brasil não saiba que o número de médicos nos interiores do país, incluindo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, venha aumentando progressivamente, inclusive num ritmo maior do que o crescimento nestes mesmos locais, de leitos hospitalares e de infra-estrutura. Não me impressiona que nosso presidente desconheça os recentes registros do IBGE, que mostram haver na região sudeste cerca de 106.000 leitos hospitalares para o SUS (ainda insuficientes), enquanto na região norte há cerca de 9.000. Que enquanto só no estado de São Paulo há cerca de 250 Unidades de Tratamento Intensivo que atendem ao SUS (sempre lotadas), há para toda a região norte apenas pouco mais de 60. Não me impressiona que ele não saiba que faltam programas de incentivo para que os médicos se fixem nestas regiões, e tenham condições dignas de prestar assistência aos pacientes. É... isto não me impressiona.

Outra matéria recente que também me marcou, abordava o conflito entre o Ministério da Saúde e as clínicas de hemodiálise. Nesta, diante da reivindicação da Sociedade Brasileira de Nefrologia frente à necessidade de reajuste das sessões de diálise pagas pelo SUS, um funcionário do Ministério da Saúde chegou a dizer que “essas entidades médicas” defendiam seus interesses, tentando criar um “lobby para cima do ministério”. O Ministério da Saúde se pronunciou ainda, dizendo que houve reajuste na última década. Bem... é verdade... houve reajuste, porém este foi quase 70% menor do que o aumento dos custos. Não me impressiona que o Ministério da Saúde desconheça que nos últimos dez anos, o número de renais crônicos em hemodiálise quase dobrou, ou desconheça ainda, que comparativamente aos outros países, estamos no final da fila no que diz respeito ao valor repassado por cada sessão de diálise. Bom... mas o nosso país já está acostumado mesmo a ficar no final da fila, inclusive na educação... fazer o que não é mesmo? Isso não nos impressiona.

Continuando a releitura das notícias posso citar algumas ainda que me marcaram. A notícia de que do dia 1º de Janeiro até o dia 28 de maio, cada brasileiro trabalhou para sustentar o governo em suas três esferas (em troca do que mesmo?); ou quem sabe a notícia do maior desastre natural da história, que foi o vazamento de cerca de 148 milhões de litros de petróleo no Golfo do México; ou quem sabe a notícia de que mesmo após várias mortes pelo vírus H1N1, tendo se investido em uma vacina segura, o governo não atingiu suas metas de vacinação para algumas faixas-etárias... não, estas notícias também não me impressionaram.

E quando já estava quase desistindo de me impressionar com alguma coisa, um acontecimento veio em minha mente: O terremoto do Haiti. Mais precisamente, o que me impressionou na época foi a história de um homem, que após cerca de 20 dias do desastre ocorrido, foi encontrado com vida por debaixo dos destroços... sendo ainda capaz de sorrir. Várias outras notícias então surgiram em minha mente, que tinham em comum exatamente isso: Diante de grandes sofrimentos, no final das contas, as pessoas ainda eram capazes de sorrir. Isto é impressionante.

Não me impressiona que nosso próprio presidente desconheça sobre o sistema de saúde do país... impressiono-me sim, quando uma pessoa totalmente desassistida nos locais mais distantes, sorri diante da tímida presença do Estado. Não me impressiona quando o Ministério da Saúde entende como “exagero nefrológico” as reivindicações sobre os reajustes nas sessões de diálise... mas me impressiona, quando um paciente renal crônico recém admitido em diálise, sorri ao receber a notícia de que poderá ir de alta hospitalar, pois há uma vaga onde dialisar. Não me impressiona mais que pague tantos impostos sem vê-los aplicados em melhorias públicas... mas me impressiono quando sou capaz de sorrir diante de qualquer desconto.

Talvez esteja aí um grande motivo que nos faça impressionar, perante este mundo repleto de “normalidades”: A capacidade de nos reconstruirmos diante das dificuldades. O sorriso, é a prova clara do início desta reconstrução.

Andrea Pio

7 comentários:

Clayton disse...

Mais uma vez uma excelente crônica! Fico sempre impressionado não só com os seus dizeres - que sempre me inspiram - mas como as figuras que coloca, ilustram as crônicas. Especificamente sobre esta crônica, observo que realmente nos acostumamos com as "normalidades", que vão desde nossos corriqueiros problemas hospitalares até o costume de ouvir tiros nas ruas das grandes metrópoles! Mas tenho uma "Anormalidade" a constatar: A NOSSA AMIZADE É FORA DO COMUM!!!

Um saudoso abraço! Parabéns!

Andrea Pio disse...

Ei zézinho. Obrigada mesmo. Tenho muito muito orgulho de tê-lo como meu amigo viu? Vc sabe.

Pois é... diante de tantas normalidades hoje em dia, ao menos algumas anormalidades são positivas!

Saudades!!!!

Camila disse...

Andrea,
Concordo com seu amigo. Mais uma excelente crônica.
Eu li também o pronunciamento do nosso presidente a respeito dos médicos e sua área de atuação no Brasil. Assim como você, não me impressionei.
Observação: Será que se ele fosse médico, dispensaria a possibilidade de ter um consultório em plena Avenida Paulista? Duvido.

Camila

Andrea Pio disse...

Camila,
Fico feliz que tenha gostado do texto.
Abração!!!

Mauro Sueyro disse...

Cara Andrea,
Você não imagina o quanto fiquei curioso em ver esta cena, principalmente a galinha. Imaginei-a até com um lenço florido, brinco e chapéu.

Vi a notícia deste homem que sobreviveu ao terremoto do Haiti depois de tanto tempo soterrado. Também fiquei impressionado. Mas será que ele sobreviveu depois?

Cumprimentos,
Mauro

Nicole Rodrigues disse...

Que bonito! O blog de cara nova. E que bom que você voltou :-)

Andrea Pio disse...

Oi Mauro,
Olha a galinha protagonista da minha crônica não usava brincos ou lenço florido, mas te garanto que era MUITO elegante mesmo, viu?
Quanto ao homem vitimado no terremoto do Haiti... sinceramente espero que tenha sobrevivido.

Oi Nicole
Pois é... mudei um pouco a cara do blog, devido às novas opções oferecidas pelo nosso blogger.

Abraço!