25 de dezembro de 2010

CRIANÇAS BRASILEIRAS: ESTOU EM GREVE NESTE NATAL.



Estou cansado este ano... na verdade mais desanimado do que cansado, e com uma baita dor na coluna, fruto das milhares de chaminés que já desci nestes anos todos nos países mais frios. Pelo menos no Brasil não há chaminés. Minhas renas é que sofrem aqui, quando precisam parar em locais onde não há infra-estrutura adequada, sem água tratada para beber. Mas isto ocorre também em vários outros países.


Mas esta minha dor seria o de menos se me mantivesse animado em entregar os presentes... o que não é o caso. Está cada vez mais difícil desempenhar meu papel com competência, porque a cada geração mais obstáculos surgem para meu trabalho. Na geração dos seus bisavós, por exemplo... eles eram crianças bem menos exigentes. Não pediam centenas de brinquedos de uma vez só. Não havia a televisão para impor o que iriam querer. Eram brinquedos de madeira, que até a grande indústria não era capaz de fazer. Meus ajudantes até construíam os brinquedos, imaginem só!


Quando seus avós eram crianças, ainda era fácil agradar. Esta tecnologia que chegou recentemente, não acabava com meu encanto. A própria “cultura do consumo” ainda crescia de forma tímida, e as crianças aguardavam ansiosamente o Natal para ganhar o presente. Hoje, o Natal é apenas “mais uma data para se ganhar presente”. Meu colega coelhinho da páscoa, pelo menos, tem mais exclusividade. Não há outra data exclusiva para “se ganhar chocolate”.


E então, com a chegada da geração dos seus pais, tudo começou a mudar. No Brasil, ainda me lembro bem, existia uma fábrica de brinquedos – não sei se o nome era “Lua”, “Terra”, “Estrela”... algo assim, que colocou no mercado milhares de brinquedos, dentre eles alguns com tecnologia (hoje já ultrapassada)... e meus ajudantes neste momento, já perderam seu emprego. Fui obrigado a terceirizar completamente meus serviços. Mas, apesar de me confessar conservador, não desanimei ainda. Sendo necessário mudar, poderia me adaptar já que as crianças continuavam me esperando... antes que a adolescência chegasse e trouxesse sua descrença.


Mas na última década, o que já vinha mudando, mudou de vez. A cada ano que passa as crianças deixam de acreditar em mim mais cedo. Veja quantos anos têm as que ainda acreditam! No máximo cinco ou seis anos. Seus bisavós ainda me esperavam quando tinham dez anos! Do jeito que as coisas estão caminhando, nas próximas gerações só poderei visitar os berçários, puxa vida.


Não bastasse a descrença precoce da minha existência, seus pedidos estão ficando cada vez mais difíceis de serem atendidos, queridas crianças. Com o advento da tecnologia e esta tal de internet (minhas renas, inclusive, a odeiam por temerem ficar desempregadas), até produtos chineses vocês estão querendo! Isto está atrapalhando a própria logística que havia montado! Agora tenho que entupir meu trenó já na China antes de vir para o Brasil... assim não dá. Tudo aqui é chinês! Será que vou aposentar minhas renas e instalar terminais de computadores na minha casa? Não... assim terá acabado a própria magia do Natal!


Mas mesmo tudo isto me entristecendo, digo agora o motivo exato desta greve especificamente no Brasil... um motivo muito mais grave, que nestes últimos anos me deixou muito desanimado. As crianças são iguais no mundo todo, até uma determinada idade. Isto é o que há de mais bonito! Mas vocês, lá pelos seis anos – último ano em que me dariam o privilégio de sua crença – já me fazem pedidos de adultos! Isto é o mais grave de tudo! Vocês estão querendo me eleger o presidente da república? Estão querendo me dar algum cargo político? Vou exemplificar com algumas das cartas vindas do seu país.


- Papai Noel. Este ano não quero presente. Quero que aumente o salário dos meus pais. Todos os dias vejo que eles fazem continhas e continhas, para depois colocarem a mão na cabeça e dizerem: “não vai dar para pagar tudo”. Não quero ver papai e mamãe tristes assim papai noel. Peço que aumente o salário deles!


- Papai Noel. Mamãe está doente e precisa de tratamento. Sei que não posso pedir de presente que a cure, porque papai falou que só Deus pode fazer isso. Mas quero pedir um hospital para ela se tratar. Desde o início do mês, minha família fica nos corredores do hospital e minha mãe cada vez piorando mais. Não tem vaga para se internar. Não quero brinquedo papai noel. E também não precisa trazer o Playstation do meu irmão (sei que ele já escreveu a carta, mas como sou mais velha que ele, posso cancelar o pedido dele). Queremos um hospital para a mamãe.


- Papai Noel. Eu quero que não entregue presentes em uma cidade chamada Brasília. Meu pai disse que lá ficam com nosso dinheiro todo. Já devem ter brinquedos demais.


Estes são apenas três exemplos para justificar esta minha atitude, crianças. Há muitas outras cartas escritas, mas são mais fortes e não recomendadas. Aliás, vocês têm falado muito mais palavrões e gírias que as gerações anteriores, viu?

Para toda a greve, além de uma reclamação há uma exigência. Não quero aumento de salário pois não recebo. Não quero que acreditem mais em mim, porque sei que isto não é possível. O que quero é que façam apenas uma pergunta aos seus pais e exijam que eles reflitam. Anotem aí, pois vão esquecer. E não se preocupem, pois não irão entender mesmo.


Papai, mamãe, o que está acontecendo com vocês? Vocês não acreditam no papai noel mas acreditam que o presidente é bonzinho. Não acreditam no coelhinho da páscoa mas acreditam que o país pode melhorar, mesmo com seu salário não aumentando e o dos políticos aumentando mais de 60% neste ano; não acreditam na fada do dente, mas acreditam que eu posso ser um adulto com saúde no futuro, mesmo comendo cheeseburger e ficando o dia todo na frente do computador e televisão. Já que vocês então acreditam nas coisas erradas, podem ao menos me poupar do que acontece? Assim, posso também poupar o papai noel e continuar pedindo a ele brinquedos... ao invés de pedir o que só os políticos – que vocês elegem – poderiam resolver. Ele já falou que pode abrir mão até das renas e usar as entregas on-line. Mas disse que não vai abrir mão da roupa vermelha e trocá-la por um terno e gravata.
.
.
Andrea Pio

5 comentários:

Camila disse...

Andrea, estou chateada por ter lido esta carta do papai noel somente hoje. Se tivesse lido antes, poderia ter informado a minha filha que ele estava de greve este ano. Você não tem idéia do preço do presente que ela pediu a ele. Brincadeira a parte, o que você escreveu é a mais pura verdade. Fico vendo as crianças de hoje e me recordo que quando eu era criança, não amadureci tão rapido.
Feliz ano novo andrea !
Camila

Emanuel disse...

Genial. Não posso elogiar muito senão vc vai querer mandar mais ainda em casa. Tb vou deixar o pedido para o Papai Noel para o próximo ano: voltar no tempo, mais ou menos 510 anos. Ai, a gente pode começar de uma outra forma pq se depender do futuro para melhorar não vai rolar...
O problema e a solução estão em nossas mãos e não nas dos políticos.

Andrea Pio disse...

Camila,
Como sempre seus comentários são sempre divertidos. Obrigada!

Emanuel,
Você diz que eu quero mandar na casa só porque não o deixei comprar uma mesa de sinuca ENORME para colocar bem no MEIO da sala! Ai ai... homens. Rindo.

Jose Carlos disse...

Muito muito bom Andrea. Gostei muito do texto.


Jose

Andrea Pio disse...

Obrigada José Carlos.