2 de abril de 2011

O MÉDICO COLECIONADOR DE CANETAS



- Boa tarde Inês.

- Boa tarde Dr. Rogério. O senhor demorou hoje. Já está quase na hora da primeira consulta.

- Me atrasei porque não preciso mais de caneta no hospital.

- Não entendi doutor.

- Não importa. Quantos pacientes temos hoje?

- Cinco... estou vendo que o senhor está aborrecido.

- Estou chegando do hospital. Não adianta porque não vou me adaptar ao prontuário eletrônico, que está se alastrando de forma arrasadora pelos hospitais. Uma verdadeira epidemia de péssimo prognóstico para o meu bom humor.

- Ah... agora entendi porque o senhor falou não precisar mais de caneta no hospital. Mas não vou dizer o que penso sobre isso.

- Ótimo Inês. Não diga.

- Pensando bem vou dizer sim.

- Eu já sabia. A cada ano você me contraria mais. Fale.

- Eu não entendo o senhor. Sempre reclamou que não consegue entender a letra dos seus colegas.

- E daí?

- Bom, se vários médicos e outros profissionais da saúde cuidam de um mesmo paciente no hospital, não ficará mais fácil que tudo esteja escrito - de forma legível - no mesmo prontuário? Assim, todos conseguem se entender.

- Isso é o de menos.

- O senhor também reclama que não consegue fazer revisão de prontuário com seus residentes, porque os dados estão sempre incompletos.

- Exatamente. Aqui na clinica meus prontuários são completos. Se eu quiser fazer uma revisão, é só pedir que separe as fichas dos pacientes.

- Eu? Separo não senhor! Vou morrer de alergia com tanto mofo naquelas caixas guardadas por mais de uma década no arquivo.

- Você é muito exagerada.

- Mas então doutor. Lá no hospital, com este sistema informatizado, não será mais fácil para os profissionais da saúde fazerem tais revisões?

- Nossa... como me arrependo de ter aceitado que fizesse aquele curso de informática Inês. A tecnologia fez uma lavagem cerebral em você.

- Só vou fazer mais uma pergunta para o senhor.

- Não.

- O senhor não quer usar o computador por não concordar ou por ter dificuldade em usá-lo?

- Os dois. Não sei datilografar, e por que iria saber? Não tenho habilidade com o computador. Outro dia perdi tanto tempo procurando o ponto de interrogação, que acabei não fazendo as perguntas para o colega que iria dar o parecer que pedi. Hoje fiquei mais tempo digitando do que examinando os pacientes. Como pode isso?

- Mas esta questão de não saber digitar é uma questão de hábito doutor. Aos poucos irá se acostumar com as teclas. Não precisa bater com todos os dedos.

- Acostumo não.

- O senhor reclamava tanto da máquina digital antigamente... em todas as fotos que tirava aparecia alguém da família sem a perna ou sem a cabeça. Hoje o senhor já é o fotógrafo oficial da família. Tirou até foto do pão de açúcar quando foi ao Rio!

- A foto ficou ruim. Parecia que o bondinho havia caído no chão. A metade da foto era o céu.

- Ah... mas não importa doutor. Deu para saber que era o bondinho... e o céu estava tão bonito! O que importa é o sentido e não a perfeição.

- É diferente. Tirar fotos é lazer. Não tenho que me adaptar a estas modernidades depois de décadas de prática clínica.

- O senhor trocou a televisão da recepção por outra moderna... disse que tínhamos que nos "adaptar ao que há de novo". Pediu ontem para eu trocar a impressora velha por esta nova. Pensei que tivesse vindo um livro grande de brinde e quando fui ver... era o manual para eu aprender a usá-la. E por fim, ouço que o senhor orienta que seus alunos leiam os artigos recentes que saem na internet. E agora o senhor não quer se adaptar? Se o senhor se adapta aos objetos mais modernos por que também não pode modernizar sua atitude no hospital?

- E o que eu vou fazer com a minha coleção de canetas que ganhei dos pacientes Inês? Posso até começar a sugerir que me dêem daqui para frente “mouses" ou "pendrives"... mas o que vou fazer com todas estas? Só vou precisar fazer rubricas...

- Sugiro então que guarde a coleção de canetas junto com sua futura coleção de selos. Afinal doutor, o senhor precisa também deixar de escrever tantas cartas e começar a usar seu e-mail...


Assim como o Dr. Rogério, muitos profissionais de saúde se mantêm resistentes ao emprego do prontuário eletrônico. Este, por sua vez, já se encontra amparado pelo Conselho Federal de Medicina, e tem se tornado uma realidade cada vez mais presente em nossa rotina. De fato, se antes o prontuário era levado para onde estivéssemos situados na enfermaria, agora temos que nos situar diante do computador. Se antes escrevíamos seguindo nosso próprio método de evolução médica, agora temos que nos adaptar ao método pré-estabelecido pelo sistema informatizado. Se antes tínhamos uma folha em branco para escrever, temos agora campos já determinados para digitar.


Realmente não é fácil mudar. Não é fácil ter que inserir uma tela, inúmeras teclas e um mouse no meio da prática clínica. No entanto, tais dificuldades não diminuem a real necessidade desta mudança. Um estudo recente que analisou prontuários de hospitais brasileiros, mostrou que a menor parte deles era preenchida ou entendida adequadamente. Vemos então, que a mudança é necessária. Dentre as vantagens da informatização, estão a total legibilidade, a possibilidade de incorporar sistemas automatizados de alerta e apoio à decisão, a possibilidade de o mesmo prontuário ser acessado de vários locais, e a realização de pesquisas retrospectivas sem que para isso seja necessário resgatar prontuários e transcrevê-los.


Estamos hoje inseridos neste contexto de informatização na saúde e é natural que tenhamos certa dificuldade em mudar nossa rotina. No entanto, se pensarmos que tais mudanças objetivam unicamente melhorias na saúde, certamente perceberemos que somos agentes fundamentais neste processo. Vamos adotar os computadores na prática médica para nos adaptarmos ao sistema... mas certamente, o próprio sistema nos trará em troca frutos bem promissores.


Só não sei - cá para nós - o quão promissor será o futuro das nossas canetas...

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Andrea Pio

9 comentários:

accustandard disse...

Muito bom o texto, gostei, um convite a reflexão dos novos tempos.

Andrea Pio disse...

Que bom que gostou. Muito obrigada.

Jones disse...

Mais um vez, um ótimo texto!
Na pós, fazendo um monte de matéria de humanas, fui obrigado a escrever. Digo, palavras, não apenas equações matemáticas ou gráficos...
Após uma prova percebi que estou desaprendendo a escrecer...
Fiquei cansado e com a mão dolorida!
Cheguei a conclusão que, se estivesse respondendo a prova no meu notebook, teria acabado na metade do tempo, o texto teria ficado mais limpo e não teria me cansando de apagar a prova para corrigir os erros de português.
Ademais, teria economizado alguns pedacinhos de arvore! Afinal, poderia ter enviado a minha prova por e-mail.
Fico feliz em saber que - em um futuro próximo - os prontuários poderão ser salvos até na Internet e acessados de qualquer lugar (iphone, ipad, etc.). Além disso, estes documentos poderão ser salvos em dispositivos próprios de armazenamento de dados, salvos das traças e mofo que tanto gostam do papel.
Isso sem contar que eles serão totalmente legíveis...

Andrea Pio disse...

É verdade Jones. Escrever com o teclado poupa nosso tempo (e paciência) de apagar e escrever de novo. Mas ainda tenho a mania de fazer a revisão final sempre com papel e caneta. Talvez seja meu subconscientente que não quer se entregar totalmente aos novos tempos. Talvez meu subconsciente esteja sempre trajado de mendigo - tal como aquela outra crônica.

Obrigada pela presença e pelo comentário, viu?

Camila disse...

Andrea,
Diante do seu texto vou tentar ter mais paciência com a informatização da medicina no hospital.
O q acho interessante nos seus textos é que sempre deixa dúvida sobre o que vc realmente pensa. Sempre coloca os dois lados da situação para que o leitor decida. Já decidi ser mais tolerante com os novos prontuários.

Camila

Andrea Pio disse...

Obrigada Camila!

Juliana Bordon disse...

Olá amiga, que saudade!!! Ótima crônica, adoro prontuário eletrônico, o problema é o número insuficiente de computadores!!!Nessa horas a caneta me salva!!! Bjo, mande notícias!!!
Juliana Bordon

Anônimo disse...

Se a informatização nos hospitais, em especial no SUS, tivessem como objetivo melhorar as condições de trabalho e assistência aos doentes seria ótimo. O que vejo são sistemas medíocres que vivem falhando e têm como único objetivo enriquecer empresa terceirizada que está ali porque tem algum esquema com alguém do hospital. Medicina é uma profissão artesanal. Se o médico fosse remunerado como deveria, certamente poderia atender menos pacientes, com mais qualidade e com melhor preenchimento de prontuário.

Ezequiel

Andrea Pio disse...

Ezequiel,

Procuro usar raramente o verbo "generalizar". Há casos e casos, inclusive na informatização dos hospitais. Digo que, assim como vc minha experiência não tem sido nada boa. Mas, quem sabe no futuro não mudemos de opinião, e a informatização venha nos beneficiar mais que prejudicar?
Já em relação à remuneração médica que mencionou... já não tenho muita esperança que melhore.

Gostei muito do termo "A medicina é uma profissão artesanal". Sempre achei que a relação médico-paciente precisa ser assim: artesanal.
Obrigada pelo comentário.
Andrea