22 de dezembro de 2011

DESTINO DO VÔO: FUTURO DO PRETÉRITO


Noite de quinta feira, aeroporto de Congonhas, na fila do embarque lembro chateada que minha reserva de acento feita pela internet não foi concluída, tendo restado apenas poltronas do meio – entre a janela e o corredor. Pode parecer frescura (acredito que seja), mas sinceramente, evitar ficar comprimida no meio é uma de minhas inúteis prioridades.



Acomodo minha mochila debaixo da cadeira, repouso minha bolsa no colo e inicio a leitura de uma revista. Ao lado direito – na sonhada janela – um senhor bem observador (que também lia minha revista), e ao lado esquerdo, uma franzina senhora, de casaquinho de florzinhas azuis, combinando com a bolsa espaçosa, que invadia e protagonizava meu – estrito – espaço.



Após a decolagem, com uma fina pontada de esperança, estico o pescoço a procura de algum lugar vazio. E como se fosse uma alucinação, lá estava ela... a poltrona vazia da janela. Na verdade, eram duas poltronas vazias, uma ao lado da outra. Antes de me levantar, porém, minha razão (como sempre) exigiu prudência ao me avisar: “Espere alguns minutos. Os passageiros podem estar no banheiro. Um lugar na janela vazio num vôo lotado é praticamente impossível”. Assim... esperei.

Quinze minutos se passaram e, a menos que os dois possíveis passageiros estivessem no banheiro com intercorrências gastrointestinais severas, parecia que realmente era o meu dia de sorte. Pela primeira vez na vida, resolvi mudar de lugar. Fechei a revista (sem jeito, pois não era a única leitora), peguei minha mochila, pedi licença à senhora (e a sua enorme bolsa), e me dirigi para quatro fileiras adiante... onde sentaria na janela.

Ao chegar... parei em frente à fileira, e imediatamente o sangue fugiu da minha face, e o piso fugiu dos meus pés. Senti como se flutuasse na imensidão da noite – fora do avião. Meu estômago dirigiu-se à boca. Meus olhos se arregalaram, e meu coração começou a bater mais rápido. Tudo isto diante da seguinte constatação: o local não estava vago. Apenas o meio (novamente) estava vazio. Na poltrona da janela – meu sonhado destino – estava sentado um homem anão. Não o tinha visto, e pela forma que me olhou... certamente percebeu isso.



Quantas vezes não passamos por situações semelhantes a esta? Enganos que não sejam fruto de erros, mas simplesmente, da nossa própria incapacidade de enxergar de forma mais ampla o que existe – ou quem existe – diante de nós, mesmo quando de fundamental importância?



Na prática médica isso é muito comum. Não deixarmos de enxergar uma pessoa, mas algo dentro dela, que ainda não se manifestou – e que muitas vezes já tem importância. Na oncologia, por exemplo, alguns tipos de cânceres podem passar despercebidos em fases muito iniciais, por não apresentarem sinais ou sintomas. Na cardiologia, uma insuficiência valvar pode não ser suspeitada em paciente jovem, quando não há fatores de risco ou sintomatologia. Na nefrologia, uma estenose de artéria renal pode já estar presente, antes que as manifestações clínicas surjam, não sendo sequer suspeitada. Na cirurgia, vários “achados” podem ser visualizados no intra-operatório que não foram antecipadamente vistos nos exames de imagem. Na infectologia, há inúmeras doenças que permanecem incipientes, e tanto o médico como o paciente não questionam existir. E o mesmo ocorre em todas as especialidades... afinal, a clínica é soberana somente quando começa a se manifestar. Até lá... soberano mesmo é o silêncio do organismo.



Casos assim não são erros médicos. Não são displicências dos pacientes. São acontecimentos inerentes à própria existência humana: Alterações em nosso organismo que não foram detectadas, por não se manifestarem. Algumas delas estarão presentes por toda a vida do indivíduo, sem ao menos serem descobertas, não trazendo problemas. Outras poderiam ter sido identificadas antes de se manifestarem, pois já se consistiam num problema inicial. Cada caso é um caso. Como agir então?



A medicina vem evoluindo a passos tão largos que nós médicos somos obrigados a correr para acompanhá-la. No entanto, devemos nos questionar: Nesta corrida, onde queremos chegar?



Atualmente métodos diagnósticos precoces estão disponíveis para a detecção de muitas doenças. Podemos encontrar desde estudos genéticos até a pesquisa de enzimas específicas relacionadas a fatores prognósticos... e o futuro tem caminhado nesta direção. Na direção do futuro do pretérito... na direção do que “poderia ocorrer”. De certa forma, a medicina preventiva também caminha nesta direção, mas com a diferença de já saber o que objetiva evitar, estando respaldada por dados epidemiológicos.


O que estamos querendo evitar? Ou o que estamos querendo prever? Procuramos doenças que podem de fato surgir ou procuramos a eternidade? Procuramos erros de codificação, previsões do futuro dentro de nós mesmos, para agirmos antes das possíveis intercorrências? Podemos esconder o imprevisível nas trilhas deste futuro programável, através da realização de inúmeros exames de última geração?



Por outro lado, estima-se que mais de três mil doenças decorram de mutações no genoma, podendo ser identificadas por meio de exames modernos. Por que então abrir mão disto? O que é extremamente novo não pode vir a se tornar habitual? Isso ocorre com os exames rotineiros para diagnóstico (e não prevenção) de câncer de mama, de próstata, entre outros. Um dia a mamografia e o PSA já foram considerados muito avançados, estando hoje inseridos na rotina. Atualmente já é possível diagnosticarmos doenças em estágios muito iniciais. Dados na literatura respaldam inclusive, a informação de que 40% dos casos de câncer podem ser prevenidos.

Até onde devemos procurar então, o que ainda não se manifestou, mesmo no caso das doenças crônicas? Talvez a resposta esteja relacionada à palavra “conduta”. Estes exames determinarão alguma conduta médica nos próximos anos? Ou alguma mudança de conduta pelo próprio indivíduo, impactando numa maior sobrevida? Ou quem sabe a resposta também esteja relacionada à palavra “procura”. Sabemos, ao solicitar um exame de última geração, exatamente o que estamos procurando? Há fatores de risco independentes que justifiquem tal solicitação? Ou solicitamos “para ver se achamos alguma coisa que nem sequer suspeitávamos”?



Ao longo do caminho, durante a longa corrida para acompanhar os passos largos da Medicina, vamos descobrir até onde poderemos ir. Pesquisas são fundamentais para ampliarmos nossa visão sobre o que existe e desconhecíamos, assim como para tratar o que ainda não possui cura. Mas nosso olhar sobre o ser humano deve manter-se tradicional, conservador. Afinal, as doenças vão surgindo... mas o portador delas – o homem – já surgiu há muito tempo.



Voltando ao avião, resolvi sentar na poltrona do meio, ao lado do homem que não tinha visto em função da estatura. Sentei, fechei os olhos... e fingi dormir. No meu lugar anterior, provavelmente sentou-se a grande bolsa azul de florzinhas da simpática senhora.



Acredito que acentos vazios na janela em vôos lotados serão cada vez mais raros... e diagnósticos raros serão cada vez menos "diagnósticos vazios".



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Andrea Pio

10 comentários:

Gabriel Abreu disse...

Tia dedeia,amei a sua crônica ficou muito legal mesmo.bjos feliz natal!

Alexandre Pio disse...

Feliz natal e um próspero ano novo. Minhas recomendações para todas as viagens são: Busque sempre a cadeira do corredor, mp3 no ouvido, pronuncie ocasionalmente palavras estrangeiras e passe antes loção "eau du bode". Passageiros nas poltronas ao lado serão somente lembranças.

Andrea Pio disse...

Meu sobrinho e meu irmão... amo muito vocês.

Francisco Doña disse...

Vine para dar las gracias, estimada colega, y me he encontrado con un magnífico blog que, desde ahora mismo, voy a seguir con el mayor interés.
"Feliz ano novo, Andrea!"

Andrea Pio disse...

Obrigada Francico. Bem vindo! Fui conferir seus blogs e está de parabéns. Também me tornei sua seguidora. Feliz 2012! Abrazo!

Raquel Lautenschlager Santana disse...

Sua crônica ficou ótima!!!


Feliz 2012.

Abraços.

Andrea Pio disse...

Que bom que gostou Raquel. Obrigada!
Feliz 2012 para você também!
Abraços.

Nicole Rodrigues disse...

Nossa quanto tempo faz que não venho aqui. E quanto tempo faz que você não posta. :( Está tudo bem? Espero que sim! Sua sensibilidade e sabedoria, no entanto, continuam a se manisfestar lindamente em suas crônicas.

Um beijo,

Nicole

Andrea Pio disse...

Oi Nicole! Está tudo bem. Apenas uma fase de muitas mudanças e afazeres profissionais. Este mês ainda vou escrever.
Obrigada pela visita. Também vou lá ver como estão seus blogs.
Beijo,
Andrea

Priscila Torres disse...

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